Ela Que Mora no Andar de Cima

Mostra de Tiradentes: Ela Que Mora no Andar de Cima

4

Em uma linguagem que mescla uma atmosfera de imaginação com o real, o público acompanha em Ela Que Mora no Andar de Cima a construção e o encerramento da relação entre Luzia (Marcélia Cartaxo) e Carmem (Raquel Rizzo). Vizinhas, elas trocam receitas e experimentam doces juntas, trocando críticas sobre cada alimento. Até o dia que uma delas cessa os encontros, quebrando a dinâmica que havia sido construído. Neste contexto, o foco são os sentimentos de Luzia que enxerga Carmem de uma maneira especial.

Estabelecendo um clima de paixão, admiração e afetividade, desde a primeira cena o público vê um ato de Luzia que revela seus sentimentos. A projeção começa com ela fazendo uma tatuagem. Logo depois, descobre-se que Carmem tem seu corpo todo tatuado. São nestes detalhes e nas revelações lentas dos atos da protagonista para se sentir mais próxima de sua amada que está o maior ganho do curta-metragem.

O filme consegue transmitir a euforia da personagem principal,. Quando ela está perto de Carmem, o frescor se eleva, o ambiente fica mais iluminado, as cores parecem mais fortes e alegres. Em alguns momentos, o recurso da câmera lenta, juntamente com planos mais fechados em Carmem e uma música sexy, contribuem para que sejam nítidos os pensamentos de Luzia, através de imagens e sons. E efeitos opostos são utilizados quando elas estão distantes uma da outra.

Ela Que Mora no Andar de Cima

Através de enquadramentos mais abertos, iluminação fraca e tons mais fechados, as sensações de solidão e saudade são traduzidas na tela. A intencionalidade de pôr toda a narrativa no ponto de vista de Luzia se fortalece a partir destas estratégias, que também geram empatia por ela. As expectativas de reencontro são marcadas por um interfone que toca, avisando que já é hora delas se verem outra vez. Aqui, também há um ponto positivo na interpretação de Cartaxo, que elabora múltiplas movimentações gestuais, que rementem a ansiedade da pessoa apaixonada. Contudo, a sua partitura corporal é bastante limpa e existe uma consciência do uso do tônus do corpo para intensificar ou diminuir o peso do seu corpo, a partir da emoção que deseja passar.

Há uma importância nesta obra em retratar um romance, ainda que platônica, entre mulheres mais velhas, principalmente quando se fala em Luzia. Durante a exibição, o que são mostrados os altos e baixos de uma paixão, a dor da falta de correspondência e como alguém pode se sentir tão ferida e melancólica com a quebra de contanto com a pessoa amada. São sentimentos universais, porém transmitidos sob um olhar pouco representado no cinema. As metáforas mais explícitas ou implícitas são o que fomentam esta história tão simples, porém emocionante.

Apesar de tudo, pode-se observar que o Ela Que Mora no Andar de Cima cai um pouco em seu desfecho. Apesar da história, no geral, ser bem amarrada, a conclusão do terceiro ato fica um tanto perdida. Isto porque o conflito inserido na trama é não recebe o tempo necessário para ser sentido por Luzia e há uma espécie de ruptura brusca que não permite uma conclusão fluida do arco criado ali.

Direção: Amarildo Martins

Elenco: Marcélia Cartaxo, Raquel Rizzo

Confira nossas crítica de festivais aqui!

Pin It on Pinterest