O Cine PE existe há 29 anos e conta com uma seleção de filmes que possui longas e curtas-metragens, de Pernambuco e do Brasil. Desde 2018, o evento tem a presença do jornalista Edu Fernandes na curadoria. Já em 2024, a atriz e jornalista Carissa Viera entra na equipe curatorial.
De acordo com Carissa, o trabalho se inicia de maneira separada e, depois, a dupla começa os debates. A curadora explica que, em alguns momentos, afinar a decisão dos dois pode ser um tanto desafiador, mas que, no geral a experiência é tranquila.
Em relação à essa dinâmica, Edu revela que precisa de uma parceira como Vieira, pois, diversas vezes, o curador não quer abrir mão de alguma obra, mesmo que uma noite de exibição possa ficar abarrotada. “Carissa foi essencial para frear o meu ímpeto de lotar a grade de filmes, o que melhorou a dinâmica do festival”, conta.
Desta maneira, uma recifense e um paulistano se unem para realizar uma missão complexa, que é a de não apenas decidir quais produções entram em cada edição do festival, mas também organizar a programação equilibrando a lógica temática e a estética.
Pensando em divulgar para o público do site mais sobre todo o funcionamento deste processo de Edu e Carissa, o Coisa de Cinéfilo traz uma entrevista completa com esse time. Confira!
ENTREVISTA
Enoe Lopes Pontes — Antes de integrar a curadoria, qual era a sua familiaridade com o evento? Já tinha ido? Conhecia?
Carissa Vieira — Eu conheço o festival desde criança. Foi o primeiro festival de cinema que tive contato. Frequentei na infância e adolescência e fui júri popular no final da adolescência, em um ano que abriram inscrição para essa função.
Edu Fernandes — Antes de começar a trabalhar com o Cine PE, frequentei o festival umas duas ou três vezes como crítico de cinema, fazendo cobertura para a Revista Preview. E também acompanhava de forma remota a seleção e repercussão de algumas edições pela imprensa e por conversas com pessoas do meio, como realizadores e críticos.
ELP — Como e quando você foi chamada (o) para integrar a curadoria do festival?
CV — Em janeiro de 2024. Os curadores mais a diretoria do festival entraram em contato comigo para que eu me juntasse a equipe do Cine PE. Nayara conhecia meu trabalho e me apresentou para Edu e os Bertini.
EF — Eu que me candidatei expressamente. Em 2017, eu já tinha alguma experiência de trabalho junto com festivais de cinema, seja como mediador, oficineiro ou curador. Assim, quando encontrei Sandra Bertini no Cine Ceará daquele ano, conversei com ela sobre as dificuldades que o festival estava enfrentando com uma edição e me ofereci para participar da curadoria. Ela aceitou prontamente e comecei o trabalho logo no final daquele ano, selecionando os filmes que iriam para o Cine PE 2018.
ELP — Como funciona o seu trabalho ao lado de Edu?
CV — Nós assistimos aos filmes separadamente e juntos debatemos e selecionamos quais farão parte de cada mostra. Meu diálogo com Edu é bastante tranquilo. Confiamos bastante no trabalho e visão do outro, o que facilita na hora de dialogar sobre os filmes inscritos.
ELP — E você Edu, o que diria do trabalho com Carissa?
EF — Funciona cada vez melhor, na minha visão. Entregamos agora a segunda edição juntos, sendo a primeira em que éramos apenas nós dois. Nesse período, deu para entender a dinâmica que melhor funciona entre a gente. No CinePE 2025, Carissa foi essencial para frear o meu ímpeto de lotar a grade de filmes, o que melhorou a dinâmica do festival, com programas mais concisos e uma seleção potente. Com uma mostra paralela que cresce a cada ano, esse movimento foi importante para fortalecer essas duas frentes do festival. E o resultado foi muito recompensador.
ELP — Quais os desafios de escolher uma programação em conjunto? E individuais?
CV — Individualmente a maior dificuldade é a quantidade de filmes para assistir. São muitas obras e são longas horas em frente a tela assistindo tudo. E sempre é difícil deixar boas obras de fora, mas acaba sendo impossível selecionar todos os filmes que gostamos.
E acredito que coletivamente o maior desafio é criar uma programação coesa e que faça sentido para os dois curadores.
EF — O desafio, da minha parte, é o desapego, porque temos uma produção muito rica de filmes, o que ficou ainda mais evidente com a Lei Paulo Gustavo. Em conjunto, o desafio acredito que seja estarmos atentos para melhorar sempre. Então eu e Carissa sempre conversamos sobre o retorno que temos do nosso trabalho das mais diversas fontes, expomos ideias que brotam, trazemos relatos de como foram outros festivais que participamos e por aí vai.
ELP — Existe algum tipo de produção que chama sua atenção positivamente? E negativamente?
CV — Filmes criativos na linguagem me interessam. E documentários que conseguem explorar uma linguagem inovadora me chamam atenção. Filmes de horror que trazem nossas raízes e histórias brasileiras me encantam também. Negativamente filmes que possuem discurso datado me causam um certo desconforto.
EF — Com o decorrer dos anos, percebo algumas coisas que me atraem, como falsos documentários (mockumentaries). Tanto que selecionei vários para as edições do Cine PE. Outra coisa que me fascina são premissas que me pegam de surpresa, como usos de gêneros cinematográficos de maneiras inusitadas. O que me chama atenção negativamente é que vemos fórmulas que julgamos arcaicas ainda sendo replicadas.
ELP — Dentro desse tempo de curadoria, você teria alguma história dentro do festival que seria interessante e/ou surpreendente para contar?
CV — Este é meu segundo ano de festival e ainda não tenho nenhuma história surpreendente para contar.
EF — Acho que a última foi a emoção à flor da pele no primeiro dia do Cine PE 2025. Por conta de uma falha no projetor, havia a possibilidade de mudança de toda a programação do festival. Carissa e eu rascunhamos uma proposta para espremer a programação em um dia a menos de exibição. Foi um exercício de cortar o coração, porque nossos programas são montados com muito carinho. Jogar tudo isso fora abruptamente seria trágico. Felizmente a produção do festival é muito dedicada e conseguiu trocar o equipamento no cinema, o que causou um severo atraso na primeira noite, mas preservou o restante da programação. Tenho a impressão que valeu a pena, pelo menos pelo retorno que tive em relação a construção dos programas.
Fotos: Felipe Souto Maior, tiradas na 29ª edição do Cine PE.