Mesclar consciência política e social, com cinema de qualidade e apuro estético é algo para poucos dentro do cinema mundial. Replikka, de Piratá Waurá e Heloisa Passos, entrega consciência de direção cinematográfica, ao utilizar a decupagem e a luz para criar um mundo que convoca intimidade e discurso político visceral.
O primeiro elemento que chama a atenção é a mistura de temperaturas e texturas na tela, juntamente com a duração de cada plano. Essa característica mostra para a plateia como existe uma dimensão cotidiana e, ao mesmo tempo, épica daquela comunidade. Eles se unem para momentos de leveza, de aprendizado, de ritos, de tudo que fala com o interno e o externo, junto.
Ao mesmo tempo que se vê um grupo banhando no rio, enquanto faz música e dança disso, a plateia se depara com desmatamento e discursos potentes de membros do povo Waurá. O vermelho e o azul são da luta e da melancolia destes indivíduos, mas são mais que isso.
A iluminação, as cores e o grafismo que se materializa no ecrã falam do íntimo do cotidiano dos Waurá, que usam a arte e a natureza como veículo de comunicação e registro histórico. Assim, em um plano geral feito com drone, percebe-se toda a imensidão de terra, que é constantemente usurpada pelos brancos com sede pelo poder. No outro, um close da vulva esculpida nas rochas, que contam muito sobre o passado da região e do que pode ser passado de geração em geração.
Juntamente a isso, relatos que fomentam o quão importante a gruta Kamukuwaká é, os vandalismo que ela sofreu e como não apenas os Waurá, como povos originários habitantes do Xingu, planejam preservar a memória e a ancestralidade indígena no Brasil. Esse argumento não é colocado sempre de forma direta e verbal, porém no que o cinema faz de melhor, nas próprias imagens, em travellings da região, por exemplo.
Neste sentido, a fotografia feita pelos próprios diretores, ao lado de Fernanda Ligabue, constrói mais uma camada de sentido narrativo. Esse olhar técnico-cinematográfico, misturado com perspectivas de quem é de dentro e quem é estrangeiro, complexificam a imagem. A decupagem diz muito sobre essa caracteristica da obra, que está sempre transitando entre câmera parada que “escuta” versus quadro amplo que se move e observa a terra e o seu povo.
Um exemplo é toda a sequência do ritual dos Waurá (momento magistral, inclusive). A câmera se desloca no ritmo da performance ritualística. Todos em cena agem com tranquilidade e proximidade com o aparato audiovisual. É impressionante a diferença de um cinema sobre indígenas e feito por indígenas, porque esse relacionamento com o set é tão distinto que emerge na telona.
O conforto em ter um olhar próximo e conhecido transparece quando o quadro se aproxima e se afasta e o ritual segue na mesma energia e conexão entre a comunidade. É muito raro uma filmagem captar um momento da “realidade” que flua como se não houvesse gravação, desta forma que ocorre aqui. Essa sensação eleva a capacidade de aproximação de quem assiste com a obra e com aquela vivência.
A experiência se torna quase vívida, através de um curta que tem consciência do que deseja contar e mostrar. Dentro desta lógica, a montagem é também um fator positivo que contribui para uma boa sessão. Os cortes entre a gruta, os Waurá refletindo sobre este espaço e sobre as suas vidas e as terras desmatadas causam um impacto, porque existe coesão narrativa entre elas e uma tensão estabelecida entre discurso e imagem.
A noção de temporalidade também parece ser um tanto distinta da que se está acostumado nos filmes tradicionais. Há aqui uma extensão da sensação de tempo. As ações parecem acontecer pari passu e em múltiplas épocas também. É uma emulação que talvez não seja intencional, mas é na edição que tudo soa como passado, presente e futuro conectados, como uma reflexão extremamente real e, curiosamente, distópica.
É tudo urgente e dilacerante, porém sem esquecer de deixar espaço para os sorrisos das crianças e para a promessa de permanência de um povo. seu desfecho deixa um certo vazio, como se faltasse uma finalização. Contudo, este fato não compromete tanto a totalidade da produção. Replikka encanta por conseguir olhar para uma população com riqueza de detalhes, juntando metafórico e cru, celebrando a cultura ancestral indígena e lembrando que é possível contar histórias com denúncia e manifesto, mas com zelo estético e amor ao audiovisual. O
Direção: Piratá Waurá e Heloisa Passos



