Em cartaz nos cinemas brasileiros e acumulando presença em festivais e troféus em premiações como Globo de Ouro e Critics Choice Awards, Valor Sentimental é o novo filme do norueguês Joachim Trier (A Pior Pessoa do mundo). Na produção, a arte é pano de fundo para tratar sobre os tensionamentos e emoções advindas de relações familiares, com foco na irmandade e paternidade.
Com um orçamento de quase 8 milhões de dólares, o longa-metragem faturou, até o presente momento, 21,9 milhões de dólares. Entre o sucesso de público e crítica, Joachim revela que gosta de criar um diálogo com o público, através de imagens. Para Trier, é necessário que o audiovisual seja visto para além das palavras escritas. As visualidades são fundamentais para o cineasta, principalmente no jogo de quebra de expectativas. Em entrevista para o Coisa de Cinéfilo, o diretor explica como fugir das convenções o entusiasma.
Para garantir que essa fuga do padrão ocorra, Joachim elucida como ter uma equipe alinhada com este pensamento faz com que esta visão seja executada. “Acho que Kasper Tuxen (diretor de fotografia) e Jørgen Stangebye Larsen (diretor de arte) são muito sensíveis e trabalharam a partir de uma base naturalista. Mas, depois, a elevam à poesia ou expressividade”, garante.
ENTREVISTA
Enoe Lopes Pontes – Temos aqui iluminações e temperaturas que ajudam o público a observar mais os sentimentos dos personagens, como foi construir essa visualidade com Karson e Jorgen?
Joachim Trier – Acho que falamos muito sobre cinema como se fosse literatura, mas o cinema se trata do clima, da sensação de luz e espaços, do rosto humano e toda a emotividade do seu comportamento. Acho que Kasper Tuxen (diretor de fotografia) e Jürgen Jørgen Stangebye Larsen (diretor de arte) são muito sensíveis e trabalharam a partir de uma base naturalista. Mas, depois, a elevam à poesia ou expressividade. Tentamos descobrir porque uma determinada cena poderia ser contrastada. Como podemos criar um certo momento de silêncio no dia de contemplação ou a depressão, no meio de um dia de verão. Pode ser mais interessante do que simplesmente colocá-la à noite, quando tudo está escuro. Tentamos encontrar um contraponto.
ELP – Nós não temos aqui uma linha de progressão, temos microexplosões. Como foi traduzir emoções humanas tão profundas e complexas em um filme.
JT – Bem, obrigado. É um grande elogio se você acha que funciona. O que nos entusiasma é tentar fazer uma espécie de história fragmentada, que se move lentamente para um último terço coeso da estrutura, quase como música, para que o público tenha que se envolver em dar sentido às partes da primeira metade do filme. E tentamos fazer com que cada parte seja divertida e e interessante, em um nível humano. Mas, então, lentamente, vemos o panorama geral, à medida que o filme avança. Quero que o filme seja uma imitação de uma conversa entre mim e o público. Não quero impor tudo a eles, todas as intenções.
ELP – Dentro e fora da casa há uma mise-en-scène muito interessante, na qual podemos entender em que época os personagens estão, por exemplo. Como foi esse processo com os atores e a equipe dentro da casa?
JT – Sim, tínhamos uma casa de verdade e também um estúdio onde ambientávamos o século XX, em cada década. Íamos entre os dois lugares para filmar e criar a história do século XX dentro da casa e para observar como as implicações da guerra na sociedade norueguesa, na vida familiar e em todas essas coisas. A mise-en-scène está no cerne de tudo o que você faz como cineasta. A repetição de planos de forma subconsciente leva o público a interpretar a experiência em vez de apenas abordá-la intelectualmente. Mais uma vez, a questão do literário ou das palavras, que às vezes é secundária à mise-en-scène. A experiência de saber que um lugar carrega luto e tragédia, por exemplo, é algo complicado de construir para um público. Mas, aqui é isso que estamos tentando fazer.
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