Labirinto dos Garotos Perdidos (2026)
Giuliano Garutti em cena de 'Labirinto dos Garotos Perdidos (2026)'

Crítica Labirinto dos Garotos Perdidos

Crítica Labirinto dos Garotos Perdidos
4.3

Fazer cinema de gênero é um desafio, especialmente quando esse gênero é o horror. O cenário se aperta ainda mais quando o filme retrata o terror como uma fantasia derivativa do real. O uso dos tropos do horror para revelar a finura do véu que divide a ficção e a realidade tem sido uma escolha cada vez mais comum – no entanto, não menos arriscada. Produzir uma narrativa que abarque esse cenário e funcione quase como uma ode aos temores da vida real é a aposta feita pelo diretor e roteirista Matheus Marchetti (Verão Fantasma, de 2022) em seu mais novo projeto: Labirinto dos Garotos Perdidos.

A proposta do cineasta paulista é fazer um horror queer totalmente brasileiro e real, a partir de suas experiências e descobertas de sua sexualidade. Os passos cruzados entre o real e o ficcional são a engrenagem que faz Labirinto dos Garotos Perdidos rodar e são, igualmente, o seu ponto forte. No entanto, as escolhas de Marchetti revelam muito mais do que suas vivências numa São Paulo hostil e fria para um jovem rapaz gay, elas abrem um portal para o perigo que mora dentro. A fantasia que faz a história dançar é o lindo véu que inebria o espectador e nos faz mergulhar nos delírios, exageros e absurdos da noite intensa vivida por Miguel (interpretado por Giuliano Garutti). O longa estreia nesta quinta-feira (4) nos cinemas nacionais, distribuído pela Filmicca.

Labirinto dos Garotos Perdidos descreve a jornada de um jovem do interior vivendo uma noite regada de prazeres e estranhezas numa grande cidade. Cada vez mais mergulhado na escuridão, Miguel (Garutti) se vê perdido no meio de assombrosos acontecimentos que o cercam e perseguem, revelando que há algo à espreita lhe observando.

Talvez o grande mérito do filme de Marchetti seja justamente a sua coragem de ser. Sua essência como cineasta está desenhada há muito em seus projetos, mas, aqui, ela grita tão alto quanto o desejo pulsante dos jovens rapazes retratados em tela. O véu que comentei embala a narrativa em uma espécie de Alice no País das Maravilhas sexual, densa e esteticamente formidável. As cores vibram na tela tanto quanto aqueles corpos suados (e reais) que se desejam cada vez mais num looping de tesão sem fim e inconsequente – custando, inclusive, a própria vida. Labirinto dos Garotos Perdidos é um belo esforço criativo sobre acreditar em sua ideia e levá-la adiante, com uma equipe que, claramente, abraçou os desejos de um jovem diretor queer que quis falar de sua história da melhor forma que sabe: fantasiando os temores da vida através da ficção.

Labirinto dos Garotos Perdidos (2026)
Cena de ‘Labirinto dos Garotos Perdidos (2026)’

É sempre um prazer assistir às histórias de Marchetti – e aqui não é diferente. Ele consegue, com muita irreverência, caminhar pelo lúdico e sombrio. A corda bamba proposta em Labirinto dos Garotos Perdidos é um deleite para quem sente falta de fábulas na atualidade – especialmente quando essa narrativa dá espaço para figuras tão marginalizadas nesse tipo de fantasia. Na contramão de todo esse universo fantástico, está o amor do diretor pelo horror. Seu arcabouço de referências, como cinéfilo e cineasta, demonstra seus interesses e suas preferências, desenhando perfeitamente os caminhos de seus roteiros.

Em meio ao turbilhão de caminhos que o diretor poderia perseguir com uma história como essa, Marchetti escolhe por brincar ainda mais com suas possibilidades. A sátira dos momentos desconfortáveis na afetividade masculina, especialmente na fase de descoberta, permitem que o personagem principal viva os horrores da vida real, onde os relacionamentos, como sempre nos lembra Bauman, são mais dissolutos do que nunca. Ainda nessa lógica, existe uma sensação que persegue o público do início ao fim da sessão de Labirinto dos Garotos Perdidos. Colocando o horror fantástico de lado, o filme opera como um diário secreto do diretor em seus primeiros anos de descoberta sexual. O olhar a vida íntima pelo buraco da fechadura citada por Nelson Rodrigues é elevado à outro patamar com essa narrativa.

Toda a fabulação sobre os temores de ser um homem gay em busca de um par é maravilhosamente costurada com humor e beleza – marca registrada do diretor. Como de costume, Labirinto dos Garotos Perdidos é construído por meio de uma Montagem instigante, uma Fotografia argentoniana espetacular e uma Arte que desenha as atmosferas de fantasmagoria costumeiras nas narrativas do cineasta. Mais uma vez, Matheus Marchetti se despe diante da câmera (dessa vez, também no sentido literal), mostrando suas ansiedades, memórias e excitações.

As possibilidades mostradas pelo diretor e roteirista provam que o horror queer segue vivo e pulsante. Além, é claro, de se mostrar disposto a ser visto de forma crua e natural, sem pudores e hipocrisias, dando espaço para que um público muito marginalizado possa ver seus sonhos mais frequentes (ou pesadelos mais obscuros) na telona. Tudo isso feito com humor afiado, apreço visual belíssimo e muito (mas MUITO) tesão. E tenho dito: se você tiver a oportunidade de se deliciar com Labirinto dos Garotos Perdidos, especialmente nos cinemas, nunca mais conseguirá olhar para um pepino do mesmo jeito. Esteja avisado.

 

Direção: Matheus Marchetti

Roteiro: Matheus Marchetti

Elenco: Giuliano Garutti, Lucas Bocalon, Henrique Natálio, Gabriela Gonzalez, Gabriel Muglia, Matheus Marchetti, Tony Germano, Gustavo Brait, Julio Mourão, Igor Patrocínio, Tuna Dwek

Assista ao trailer!