Quando um documentário escolhe se valer apenas de cabeças flutuantes*, é quase certeiro que só resta debater sobre o assunto da obra. No sentido temático, Aqui não entra luz é necessário, contemporâneo e corajoso ao abordar o tratamento de trabalhadoras domésticas.
Uma delas é a mãe da diretora, Karolina Maia. Por isso, como milhares de docs recentes, ele tem voz off da cineasta, por ser um relato pessoal. Dentro desta lógica, o que torna a sessão prazerosa ou um pesadelo são as próprias personagens e o que elas estão contando.
Porque é nelas que um documentário neste estilo vai se sustentar. É, por isso que, aqui, a projeção é satisfatória. As cinco mulheres escolhidas por Karol têm perfis bastante distintos, mas que dialogam com a trama que ela deseja montar.
Tanto pelas trajetórias de suas vidas, como por suas personalidades. Assim, cada história se complementa e se costura. Aliviando a parte de que o longa-metragem é majoritariamente ancorado na força e no carisma das suas personagens.
É preciso enaltecer a coragem destas mulheres, que se colocam em cena para contar suas histórias. Ainda que exista um gosto amargo porque não há volta para as impunidades que ocorreram com as trabalhadoras, estas são histórias que precisam circular.
Cristiane Graciano, Rosarinha, Mãe Flor, Marcelina Martins e Miriam Mendes (mãe de Karol) resistiram, quebraram amarras e hoje entregam um futuro diferente para as gerações posteriores a ela.
No entanto, as moças deixam nítido que a batalha contra a opressão continua e a exposição de seus rostos e vozes, contentes, fortes e vivas, é uma das formas de esmigalhar a falácia colonialista e escravocrata das classes médias e altas no Brasil.
Elas estão ali para falar delas, quem são e o que viveram. É por isso que é importante destacar como o roteiro de Karol e a montagem de Cesar Gananian e Fernanda Krajuska respeitam essas figuras e fomentam a conexão da plateia com as mesmas.
A forma como os dialogos com as personagens são conduzidos sensibilizam porque é possível saber o que elas experienciaram, porém não de uma forma que elas sejam mostradas sem cuidado.
Os cortes entre as narrativas de cada uma também entrelaça os sentidos. O triste retrato colonialista brasileiro é amarrado pelas vivências de mulheres de regiões distintas do país, que passaram por maus tratos e assédios em múltiplas medidas, incluindo o sequestro da filha de uma delas.
Desta maneira, há no longa conexões visuais e discursivas, que aumentam a relevância da produção. Assim, Aqui não entra luz, com toda a sua denúncia e carinho com suas figuras dramáticas**, se torna um título fundamental da cinematografia nacional.
Seria interessante ver Maia convocando o que já está presente de disruptivo em sua fala e na sua visão de mundo para a sua decupagem também. Todavia, temáticas como estas precisam estar nas telonas, para além da linguagem do cinema.
* entrevistas
**no sentido da dramaturgia
Direção: Karolina Maia
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