22º Fantaspoa: Herança de Narcisa

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Alguns longas-metragens poderiam ser curtas e esse é o caso de Herança de Narcisa, de Clarissa Appelt e Daniel Dias. A grande questão aqui é a prolixidade versus a ausência de desenvolvimento narrativo.

Ana (Paolla Oliveira) e o irmão, Diego (Pedro Henrique Müller), estão de luto, pois a mãe da dupla faleceu. Primeiramente, é preciso destacar como a dinâmica entre os dois atores funciona.

Eles brincam com o realismo/naturalismo, procurando dizer o texto da forma mais cotidiana possível, o que ajuda a aliviar os efeitos negativos dos diálogos. Um grande exemplo é a sequência da piscina.

Falta organicidade nas falas escritas, que parecem sempre destacar que as personagens estão dentro de um filme de terror. Mas, a previsibilidade do texto verbal incomoda menos do que as das ações dramáticas.

Passo por passo, o público consegue visualizar os acontecimentos da obra, o que cansa, de verdade. Ainda assim, o mais grave aqui é a redundância. Diversas cenas parecem iguais, em termos de dramaturgia.

Dentro da jornada da heroína, já é possível compreender a situação que ela estava vivendo em poucos minutos de projeção. No entanto, diversas reiterações ocorrem, nais quais se vê Ana perambulando pela residência, no escuro, com uma música de tensão.

Essa atmosfera de “Dia da Marmota” cessa com a chegada de Diego, que finalmente faz a trama andar, trazendo novidades para o enredo. É através dos movimentos dele que os segredos de Ana são revelados (mesmo que sejam óbvios, pelo menos a história anda).

Contudo, a figura de Diego também é desperdiçada quando sua estadia no casarão também se transforma em falas e atos repetidos. Todavia, quando a exaustão em relação à presença do rapaz ocorre, ele parte para novas aventuras em sua vida pessoal.

No entanto, Herança de Narcisa não aproveita a saída do rapaz para investigar as emoções de Ana, de seu passado com sua mãe, seus sentimentos sobre sua gravidez, qual é a maldição que assola a morada de sua mãe (existe uma?) ou qualquer outra coisa.

Pelo contrário, o filme convoca mais elementos que dão sensação de déjà vu. Neste universo, a direção parece confusa junto com o roteiro. Apesar de alguns quadros serem bem pensados, principalmente os do final do longa, a impressão que fica é a de que Dias e Appelt não sabem construir tensão.

A encenação deve criar um sentido específico para que o terror funcione. Existem duas vias para que uma produção deste gênero funcione: protagonista e/ou personagens que a plateia cria empatia e torce ou decupagem que favorece a suspensão.

Paolla e Pedro geram a impressão de proximidade com a plateia e fica fácil torcer por eles, logo de cara, quando aparecem na tela. Mas, o que a direção faz disso? Muitos planos fechados, focados na emoção de Ana, mas que não aumentam o suspense. 

Se fossem quadros mais abertos, talvez, funcionasse melhor. De fato, fica difícil saber se uma direção melhor, ajeitaria os desconfortos gerados pelo roteiro. Ainda assim, caso a iluminação fosse mais bem feita, a obra já elevaria seu potencial qualitativo.

Quase não se enxerga o que acontece na casa. A criação de um ambiente sombrio não significa impossibilitar o espectador de ver o que se passa no ecrã. Além disso, a luz não constrói significado mais profundo e não está a serviço da narrativa.

Desta forma, ainda que Paolla e Pedro estejam dignos, com uma boa lógica de contracena, falta estrutura basilar de roteiro para Herança de Narcisa. Seguindo caminhos óbvios, sendo repetitivo e não imprimindo um grande resultado visual, o filme é uma experiência complicada. 

É difícil de finalizar a exibição, mas se vocês gostar muito do trabalho da Paolla, tudo bem, pode ser uma projeção ok.

Direção: Clarissa Appelt e Daniel Dias

Elenco: Paolla Oliveira, Rosamaria Murtinho, Pedro Henrique Müller

Assista ao trailer!

22º Fantaspoa: Herança de Narcisa
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