Crimes de Família é um drama que se assume abertamente como crítica social. Ao abordar a consecutiva passagem de uma família de classe média alta pelos tribunais, o longa de Sebastián Schindel (de O Filho Protegido e O Patrão: Radiografia de um Crime) quer atingir duramente com sua construção narrativa uma burguesia falida, tanto do ponto de vista moral quanto material. Na verdade, os “ricaços” do longa entram em ruína justamente por suas falhas como pessoas. O fracasso como sujeitos os levam a assumir dívidas com advogados para arcar com as custas oficiais e extra-oficiais de processos criminais que enfrentam na história.

Uma das principais figuras de toda a celeuma de Crimes de Família é Alicia, personagem de Cecilia Roth, uma mulher de classe média alta que divide o dia entre as fofocas com suas amigas (na verdade, apenas conhecidas porque nenhuma delas de fato parece ter grande intimidade com Alicia, enfim, relações de conveniência de uma burguesia retratada no longa), regulando as atividades da sua empregada e na sua yoga matinal. No longa, Alicia lida com um processo que envolve seu filho como réu, acusado de violência doméstica e estupro pela sua própria esposa. Além disso, Alicia vivencia um caso grave que coloca a jovem que trabalha na sua casa no banco dos réus.

No desenvolvimento de sua história, Crimes de Família encontra alguns problemas. A maneira como o filme desenvolve esses personagens é frágil. Para além dos seus lugares na sociedade e na evidente tensão entre classes apresentada na história, figuras importantes como a Alicia de Cecilia Roth são dotadas de traços superficiais. Todos parecem única e exclusivamente serem frutos de estruturas maiores que eles mesmos e que Schindel quer criticar em primeira instância. É natural que esse aspecto se sobressaia na obra, mas em termos comparativos, exemplares brasileiros conseguiram fazer isso muito bem, são eles Casa Grande, O Som ao Redor e Que Horas Ela Volta?. São longas que jamais esqueceram da subjetividade dos indivíduos que habitavam suas críticas sociais, melhor, procuraram articular as mesmas com aquele olhar sociológico que propunham. Isso não acontece aqui.

Crimes de Família, Coisa de Cinéfilo

Há pontos interessantes. Sobretudo quando o longa se atém na diferença do olhar da Alicia de Roth para as duas situações: preconceituosa e implacável com o crime da sua empregada e completamente permissiva quando o assunto é o seu privilegiado rebento. Acontece que, ainda assim, falta mais não apenas a Alicia, mas aos demais personagens e suas relações, todas tratadas com muita objetividade pelas cenas.

Quando se aproxima do desfecho de Alicia, que se desdobra nos cuidados do filho da sua empregada enquanto a mesma aguarda uma decisão da justiça sobre seu crime e a dor de cabeça que lhe causa seu filho biológico, Crimes de Família toma decisões que sugerem uma redenção para sua protagonista que na prática não acontece. A dubiedade do final, com as posições eticamente divergentes que sua protagonista toma a respeito dos dois casos (o crime da sua empregada e do seu filho) é algo interessante, só é incomoda a maneira como involuntariamente o olhar do realizador para essa protagonista gradualmente torna-se benevolente e caloroso ou como ela assume um destaque que, em dado momento, deveria pertencer às reais vítimas de todo o sistema do qual ela sempre fez parte como elemento ativo, ainda que através da omissão muitas vezes.

Direção: Sebastián Schindel
Elenco: Cecilia Roth, Miguen Ángel Solá, Sofia Gala Castiglione, Benjamín Amadeo, Yanina Ávila, Paola Barrientos, Marcelo Subiotto, Diego Cremonesi

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