Um Dia com Jerusa

Mostra de São Paulo: Um Dia com Jerusa

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Extensão do curta-metragem, de 2014, intitulado O dia de Jerusa, a diretora e roteirista Viviane Ferreira volta a narrar o encontro entre Jerusa (Léa Garcia) e Silvia (Débora Marçal) em Um Dia com Jerusa. A primeira é uma senhora de 77 anos que está fazendo aniversário. A segunda é funcionária de uma empresa que faz pesquisas de marcas com o consumidor. Neste encontro da dupla histórias sobre o passado, ancestralidades e questões raciais são evocadas. Há uma potência nesta relação das duas que é criada em um pouco mais e uma hora de projeção.

Aqui fica a aposta em retomar muitas ações e diálogos que funcionaram no curta, mas também é possível enxergar o esforço para expandir este universo estabelecido anteriormente. Apesar desta tentativa louvável, o longa não consegue sanar os problemas da obra original ou até mesmo manter os seus elementos positivos. O que acontece é uma criação de atmosfera artificial.

A começar pela decupagem problemática, na qual enquadramentos mal elaborados afastam o espectador da história que está sendo contada. Fica uma sensação de ansiedade e de uma câmera “aflita” que busca o próximo plano. Antes de ter finalizado uma sequência, o enquadramento seguinte já anuncia uma mudança de movimentação. Este recurso poderia, claro, ser efetivo. No entanto, ele provoca quebras na narrativa e pode dispersar o público. Porque eles não fomentam a trama, não deixam que sejam vistas as emoções de Jerusa ou as reações de Silvia.

Outro incômodo é a direção de atores. O texto sai truncado e colorido como se ambas estivem fazendo um discurso. O tom evocativo já era algo presente anteriormente, mas trabalhado com mesclas rítmicas nas intenções que equilibravam o jogo de cena. Esta espécie de monocordia cria um muro na construção de empatia com aquelas personagens e são outro ponto de afastamento com a produção. Há uma constante sensação de anúncio de algo que estar por vir, constantemente. Nesta dinâmica repetitiva, o ritmo se desfaz inúmeras vezes, como na cena em que Jerusa pede seu remédio. Não há motivação de personagem e instalação física antes para que tal ato seja justificado.

É importante ressaltar que existe uma utilização intensa de saturação e contrastes altos que oscilam na tela. Em partes, esta estratégia funciona quando o filme parece querer passar as tensões do cotidiano da população negra e os injustos encarceramentos vindos de um país injusto e racista, porque eleva as tensões, como nas imagens que chegam para demonstrar o que sente Silvia em seus transes. No entanto, esta escolha acaba deixando a fruição incômoda, principalmente a partir do momento que o enredo acontece dentro da casa de Jerusa.

Há um apelo da direção de arte em transformar aquele local em um ambiente tipicamente ocupado por uma senhora de idade. E este trabalho é cuidadoso e minimalista. Contudo, com as temperaturas tão altas no ecrã, é difícil fruir a quantidade amarelo e alaranjados se sobressaindo. Esta é a maior questão de Um Dia com Jerusa, são muitas informações fortes, com uma quantidade mínima de respiros.

Apesar de tudo, a obra pode agradar por reunir momentos positivos, dentro da criação de intimidade entre estas duas figuras que são Jerusa e Silvia, em como elas se conectam através do passado de Jerusa e sua família e como em uma tarde estas vidas parecem tão entrelaçadas. Este é um ganho de Ferreira, a forma como ela consegue fazer com que um sentimento de imersão naquele dia destas duas mulheres seja tão palpável.

Direção: Viviane Ferreira

Elenco: Léa Garcia, Débora Marçal, Antônio Pitanga

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