Um Animal Amarelo

Festival de Gramado: Um Animal Amarelo

Há um lugar do homem branco, brasileiro, cisgênero, classe média e heterossexual e o passado que o colocou neste lugar. Este é, basicamente, o tema geral de Um Animal Amarelo. Existe em seu enredo uma tentativa de traçar perspectivas históricas do Brasil e como um outrora corrupto entrega privilégios nas mãos de pessoas que não possuem nem o talento e/ou mérito para tal. Na trama, o público se depara com Fernando (Higor Campagnaro), um jovem cineasta, perdido na vida e que vai sendo empurrado pelo destino, que o obriga a se mover.

Entre Brasil, Moçambique e Portugal, o protagonista tenta a todo custo se encontrar e buscar um sentido para sua existência e, claro, uma maneira de fazer o filme que sonha em realizar. Além disso, o jovem herdou um osso do avô, que o faz ser seguido, desde a infância, por uma figura imponente que devora tudo ao seu redor. Estas metáforas que o diretor e roteirista Felipe Bragança deseja passar são bem construídas. Através de uma linguagem um tanto poética, Bragança investe em planos que revelam os sentimentos mais internos e profundos de Fernando e sua família.

Há na obra um forte zelo estético. A direção de arte, combinada com a iluminação e o figurino revelam traços dos indivíduos que vão aparecendo na trama. Há uma riqueza de detalhes, como no colar da portuguesa, nas caracterizações que são modificadas a cada país  ou quando Fernando regressa ao Brasil. A partir destes elementos, o espectador pode ganhar uma sensação forte de proximidade com o filme e com o que está sendo contado nele.

No entanto, os incômodos existem e estão ali desde o começo da projeção. O primeiro é a narração. Ainda que a atriz Isabél Zuaa saiba evocar os tons corretos em cada cena que sua voz aparece de fundo, o texto que está sendo dito não é necessário para o desenvolvimento narrativo. Há de se refletir no cinema a real necessidade da utilização deste recurso. Muitas vezes, ele está ali apenas para retirar a sutileza da produção e reitera demasiadamente o que já está subentendido, como é o caso aqui.

Um Animal Amarelo

Outro aspecto que precisa ser considerado é como abordar questões raciais e de gênero no audiovisual. Visto que as temáticas são a base para a formação da personalidade do protagonista e suas ações, o discurso crítico permeia os conflitos e situações. Mas, o debate não consegue avançar, justamente porque não há uma perspectiva de olhar de fora da situação. Preenchida por uma visão masculina e branca, as personagens negras parecem estar sempre a serviço de contar as peripécias deste homem um tanto loser e que pode fazer o que bem entender de seu destino, pois recebeu frutos de um país escravagista.

Existe um discurso direto e efetivo vindo dos moçambicanos Catarina, Cesarino (Matamba Joaquim) e Seixas (Lucília Raimundo). Inclusive, os três são o ponto alto da produção! Contudo, no final das contas, falta uma caracterização mais profunda das personagens negras e um olhar mais cuidadoso para as faltas cometidas pelos brancos, que trouxeram todos os resultados que são expostos no longa.

Um exemplo de como esta característica é forte em Um Animal Amarelo  está na sequência final. Fernando é visto com seu filho no colo e, ao seu lado, há o homem assassinado por seu avô – este que lhe rendeu o osso de herança -,  que acaricia o braço do protagonista. O plano vai se fechando, até que somente se veja as mãos do rapaz negro e o branco com seu neném é o centro. Este tipo de imagem revela a ausência de percepção sobre o outro e até mesmo da própria tragédia e maldades criticadas ali.

Por fim, há, também, uma inconstância nas dinâmicas apresentadas por Bragança, que fazem com que o ritmo e a estilística se percam o tempo inteiro. O risco em utilizar uma ambientação mais fantasiosa e os diálogos afiados, que denunciam a incompetência de Fernando, se perde em alguns momentos, deixando o resultado geral um tanto frouxo.

Direção: Felipe Bragança
Elenco: Higor Campagnaro, Isabél Zuaa, Lucília Raimndo

Assista ao trailer!

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