Todos os Mortos

Festival de Gramado: Todos os Mortos

Em um período no qual a abolição da escravatura era ainda mais recente, um pouco mais de dez anos, os brancos continuavam enxergando os negros como suas propriedades. Neste contexto é que se passa a história de Todos os Mortos, novo filme de Marco Dutra (As Boas Maneiras) e Caetano Gotardo (O Que Se Move). Dentro da trama, a partir das tensões raciais, é possível notar uma tentativa de crítica social à branquitude e suas ações egoístas e perversas.

Ao mesmo tempo, é perceptível a busca por situações vivenciadas por negros neste período, trazendo personagens como João (Thomas Aquino). Ele é um jovem miscigenado, que procura seu lugar na sociedade racista e elitista; Iná (Mawusi Tulani), uma mãe, que precisa proteger seu filho e que conhece bem a família branca retratada, pois já foi escravizada por eles; ou João (Agyei Augusto), um menino que, ainda desconhece os perigos de conviver com racistas e vive no meio destas tensões raciais.

Apesar de existir este trabalho no roteiro na construção de personagens complexas para os negros, trazendo uma representação um tanto menos genérica do que aquela que o audiovisual costuma empregar, há um incômodo com os rumos que a trama apresenta. Me colocando como mulher branca, que precisa escrever sobre esta obra, procurarei expor meu olhar ao relatar a indisposição que tive durante a projeção, posso afirmar que aqui fica um engasgo no momento no qual o longa não consegue avançar e ter coragem para colocar o poder de ação nas personagens negras.

Todos os Mortos

Enquanto o clima de suspense é estabelecido, o clímax se aproxima e são os brancos que dominam o destino e encaminhamento dos conflitos e finalizações. Um exemplo é quando João, que deseja se casar com Ana, caucasiana, recita um poema e comenta como Cruz e Sousa parece francês. A jovem diz que não concorda com ele, pois viu uma foto do escritor no jornal. O poeta é negro e foi isso que Ana quis elucidar para João. Será que a branca precisava mesmo ocupar esse lugar, dizendo isto para um rapaz negro?

Partido para os aspectos da forma, Todos os Mortos consegue estabelecer uma atmosfera de terror, principalmente em relação às questões sociais e de raça. Há uma suspensão no ar, onde a qualquer momento algo pode vir a acontecer. Até o seu segundo ato, o filme também apresenta uma progressão e os acontecimentos chegam lentamente, até alcançar em seu ápice. A mise-en-scène colabora com esta construção da opressão e dos embates expostos ali.

No entanto, o clímax ocorre um tanto antes do necessário e, em seguida, ele não consegue manter a sua dinâmica e passa a se tornar cansativo. No geral, a projeção tem bons momentos, como a sequência do piano ou no retorno de Iná para a sua religião. Contudo, há desequilíbrio de ritmo, evocando a aceleração e os respiros em momentos descasados, bem como na visão determinista, que retira o poder das personagens negras.

Direção: Marco Dutra e Caetano Gotardo
Elenco: Mawusi Tulani, Agyei Augusto, Carolina Bianchi

Assista ao trailer!

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