Os Fabelmans (2022)
Gabriel LaBelle em cena de Os Fabelmans (2022)

Crítica: Os Fabelmans

4.3

Steven Spielberg (The Post: A Guerra Secreta, de 2017, e Jogador Nº 1, de 2018) é um dos principais diretores atuantes no mercado cinematográfico hollywoodiano da atualidade. A carreira do diretor, produtor e roteirista estadunidense tem uma longa lista de sucessos de crítica e bilheteria que marcaram a história da sétima arte. No quesito indústria, as produções de Spielberg inovaram a forma de se fazer cinema.

De Tubarão (1975) até West Side Story (2021), a carreira do diretor acompanhou diferentes gerações com obras fascinantes. Em 2022, no auge dos seus 76 anos, Spielberg entregou ao público um retrato sensível sobre a sua arte e a trajetória de vida que o levou até o lugar onde ele está.

O mais novo longa do diretor chega aos cinemas brasileiros nesta quinta-feira (12) como um dos favoritos para ser o principal vencedor da temporada de premiações de 2023. Na última terça (10), Steven Spielberg ganhou o Globo de Ouro de “Melhor Direção” e Os Fabelmans ainda levou para casa o prêmio de “Melhor Filme de Drama”.

Ainda sem os anúncios do BAFTA e Oscar, a produção já acumula 112 indicações e 17 vitórias. Além das cinco indicações no Globo de Ouro, Os Fabelmans conseguiu duas nomeações no SAG Awards e foi o segundo mais indicado no Critics Choice Awards, concorrendo em 11 categorias.

Os Fabelmans traz aos fãs do diretor um cinema que há muito não se via. O fundador e sócio da produtora Amblin Entertainment retorna às suas origens (literal e figurativamente) para dividir com o mundo uma narrativa inspirada em sua vida. O longa-metragem descreve a jornada de um garoto que sempre sonhou em fazer parte da magia do cinema.

Os Fabelmans (2022)
Paul Dano, Mateo Zoryan Francis-DeFord e Michelle Williams em cena de Os Fabelmans (2022)

Como a vida e arte se entrelaçam, o desejo de fazer filmes se confunde aos dilemas infantis, juvenis e adultos do personagem que representa o diretor em Os Fabelmans. É fascinante como o roteiro de Spielberg, em parceria com Tony Kushner (Munique, de 2005, e Lincoln, de 2012), consegue conduzir o público por uma história tão cheia de sensibilidade e simplicidade.

A parceria de longa data entre Steven e Kushner entrega um trabalho primoroso sobre o desejo de fazer cinema. A força motriz representada na narrativa pode ser sentida pelo público durante a sessão. Apesar da duração ser extensa, os 151 minutos passam sem que sejam sentidos. O espectador é tão bem conduzido pelo sonho do jovem diretor que as únicas reações possíveis durante a sessão são gargalhadas e lágrimas. A nostalgia, o cuidado e a sensibilidade do que estava sendo composto em cena são os maiores méritos de Os Fabelmans.

O resultado emocionante e poderoso de Os Fabelmans deve-se, também, ao elenco. Encabeçada por Michelle Williams (Depois do Casamento, de 2019, e Venom: Tempo de Carnificina, de 2021) e Paul Dano (Okja, de 2017, e Batman, de 2021), a família Fabelman encanta o público num piscar de olhos. Além das poderosas cenas do casal – dando um destaque ainda maior para as nuances maravilhosamente desenvolvidas por Michelle -, o jovem ator que faz a versão mais velha do personagem principal também precisa ser parabenizado.

Gabriel LaBelle (O Predador, de 2018) foi a escolha perfeita para representar Spielberg em Os Fabelmans. O ator é o responsável não apenas por encarnar um dos maiores diretores das últimas décadas, mas por equilibrar as tensões vividas por seu personagem. O equilíbrio que Gabriel traz para o caos da família através de sua arte sensível é poderoso e emocionante.

Como pode-se ver pelo elenco, Spielberg costuma reunir os maiores nomes da indústria e a parte técnica não poderia ser diferente. A fotografia de Os Fabelmans é algo que vale a pena destacar e apreciar. O trabalho do colaborador de longa data de Steven, Janusz Kamiński (Ponte dos Espiões, de 2015, e O Bom Gigante Amigo, de 2016), torna a história ainda mais potente e tocante.

Os Fabelmans (2022)
Mateo Zoryan Francis-DeFord em Os Fabelmans (2022)

A brincadeira feita em Os Fabelmans de falar da criação de imagens a partir do que seriam imagens amadoras é genial. O diretor de fotografia constrói belas cenas e não poderia ter sido uma escolha melhor para potencializar a produção – principalmente ao considerar que Kamiński e Spielberg trabalham juntos desde 1993.

Outro antigo colaborador do diretor que está em Os Fabelmans é o editor Michael Kahn. Desde o início da parceria entre Kahn e Steven, que começou em 1977, o editor não trabalhou com o diretor em apenas um de seus projetos: E.T. O Extra Terrestre (1982). Em meio a tantas colaborações, Kahn ganhou três Oscar trabalhando com Spielberg: Indiana Jones: Os Caçadores da Arca Perdida (1981), A Lista de Schindler (1993) e O Resgate do Soldado Ryan (1995).

Os Fabelmans é o melhor trabalho de Steven Spielberg dos últimos 10 anos. É claro que fazer um filme sobre a sétima arte tem um apelo para a indústria, crítica e cinéfilos, mas o diretor não estava tentando agradar esse pessoal. Fica evidente durante a sessão que Spielberg fez esse filme para ele mesmo. Para que ele pudesse ser o contador de sua história – história essa que, em muitos momentos, se confunde com a do cinema hollywoodiano.

Essa paixão é nítida no texto, na direção, no elenco e em cada departamento do projeto. Não há nada que fuja do equilíbrio dessa trajetória emotiva em busca da realização de um sonho. E é isso faz de Os Fabelmans uma produção capaz de encantar o espectador e tornar o assistir ainda mais especial.

E é a partir dessa lógica de desejos que o filme se encerra e faz o público querer mais. Os Fabelmans é um espetáculo de arte, emoção e sensibilidade. Não é à toa que a produção é uma das mais cotadas para ganhar o maior prêmio do cinema. Mesmo sem o anúncio oficial da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, é possível apostar que o longa (quase) autobiográfico de Spielberg deva concorrer em, ao menos, 7 categorias. Dentre elas, “Melhor Direção” e “Melhor Filme”, os quais têm fortes chances de levar o Oscar para casa. Assim, o artista estadunidense que tanto sonhou em fazer cinema mostra que sonhos não apenas podem virar realidade, como são transformadores.

 

Direção: Steven Spielberg

Elenco: Gabriel LaBelle, Michelle Williams, Paul Dano, Seth Rogen e Judd Hirsch

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