Crítica: Halloween

crítica halloween

O cinema é uma indústria. Todos os dias centenas de milhares de escolhas são feitas para cada produto. Certas ou erradas, elas são escolhas. A possibilidade de classificá-las qualitativamente só vem com a participação do público. Escolher o encaminhamento de um longa-metragem talvez seja a parte mais difícil de toda a produção. Ele será o responsável pelo desenvolvimento de todo o processo criativo e culminará num resultado específico, fruto dessa escolha. Dessa maneira, realizar um remake de uma franquia ou retomar a ideia dela são algumas das opções mais delicadas a se fazer para um produto cinematográfico. Todas essas decisões vêm imbuídas de percepções particulares e carregadas de preocupações com a resposta do espectador.

O universo dos filmes de terror é um dos mais maltratados pelas escolhas das produções. 2017 foi um exemplo de fracassos sem fim. Algumas escolhas terríveis foram feitas ao ressuscitar franquias como Horror em Amityville com o péssimo Amityville: O Despertar. É necessário entender como funciona o gênero para perceber o caos que uma decisão dessas pode causar. Fazer um remake, reboot ou sequência não é apenas usar uma história famosa que em algum momento deu certo e dar continuidade a ela com um novo capítulo. É a decisão de assumir tudo o que a série de filmes representou e representa para uma geração, entender as mudanças que ela fez com o gênero e a cultura e manter esse legado.

Por essa razão, a Blumhouse Productions enfrentou uma decisão difícil ao tomar a frente do novo projeto da franquia Halloween. O encaminhamento feito pela produtora de horror foi ignorar completamente todas as sequências já feitas e dar vida a uma nova continuação direta do original. Ou seja, Jason Blum e sua empresa compraram a ideia de pegar a película de 1978 – dirigida por John Carpenter e co-escrita por ele e Debra Hill – e dar continuidade a essa história, mantendo a atmosfera de terror necessária e honrando o legado que Michael Myers tem dentro dos longas-metragens de horror. A complicada escolha feita pela Blumhouse se mostrou perfeita e criou um universo de possibilidades para a franquia.

Há 40 anos a pacata cidade de Haddonfield presenciou o mais hediondo crime da sua história. Agora, quatro décadas após o fatídico Halloween, Michael Myers conseguiu escapar de sua prisão e está voltando para casa mais uma vez. O assassino tem apenas um objetivo: matar Laurie Strode (Jamie Lee Curtis), a única sobrevivente daquela noite. Laurie, após a traumática experiência de vida ou morte, se preparou para o dia que Michael voltasse. Agora a cidade viverá o pesadelo sangrento outra vez até que sobre apenas um dos dois.

Apesar de existirem qualidades em algumas sequências dentro da franquia, reiniciar a história foi uma manobra inteligente. Com isso veio a possibilidade de revisitar tudo o que deu certo no original e incrementar ainda mais cada setor da produção. A partir dessas modificações e melhorias o público presenciará a melhor sequência já feita com direito a volta da scream queen Jamie Lee Curtis ao seu primeiro papel da carreira. Ao lado da rainha do terror, a produção trouxe de volta para os sets de Haddonfield o ator Nick Castle – que foi imortalizado por interpretar Michael Myers – e o diretor, roteirista e compositor John Carpenter para compor a trilha sonora e ser um dos produtores executivos do longa.

crítica Halloween

A ideia de dar continuidade ao roteiro de 1978 foi fundamental para guiar os co-roteiristas Jeff Fradley, Danny McBride (Sua Alteza, de 2011) e David Gordon Green (O Que Te Faz Mais Forte, de 2017) durante a difícil missão de não copiar o original, mas manter a qualidade e essência dele. O trio conseguiu criar uma narrativa própria com todas as características necessárias para honrar a história cinematográfica do longa de Carpenter sem perder a originalidade. O resultado foi simplesmente espetacular. A natureza brutal e violenta de Michael é exposta nesse longa como nunca antes. O novo roteiro leva o espectador para uma atmosfera de medo constante banhada pela maldade que emana da figura do Bogeyman (uma das maneiras como é chamada a personagem de Michael no filme). A qualidade é alta e a sensação de dever cumprida é tão clara que arriscaria a dizer que essa película se tornou tão boa quanto o original.

David Gordon Green é, além de co-roteirista, o diretor dessa produção. O seu trabalho ao comandar uma sequência importante como essa não foi nada fácil, em especial por ter ao seu lado o diretor do filme original. Contudo, David viu a presença de Carpenter como um norte para a sua jornada. Agradar um dos mestres do terror dando segmento ao seu trabalho mais notável seria uma comprovação de que estaria seguindo o caminho correto. E, para a alegria de David (e dos fãs), John Carpenter teceu diversos comentários positivos sobre o resultado da película. Os planos-sequência, os direcionamentos das cenas, as referências ao original e os posicionamentos perfeitos de câmera comprovam que a arte de David Gordon Green está impressa em sua obra tanto quanto a de Carpenter está no filme de 1978.

Um dos elementos mais interessantes dessa produção é a sua memória. Ao ignorar tudo que veio depois do filme original, o trabalho da equipe de Halloween foi focado em homenagear o que existe e criar novos momentos com criatividade e referências. Assim foi feita, por exemplo, a trilha sonora do longa. John Carpenter, Cody Carpenter e Daniel Davies foram os responsáveis pela parte musical da produção. Juntos eles conseguiram recriar a obra-prima musical de John adicionando novos elementos às faixas clássicas – como o tema principal da película – e criando novas formas de deixar o público tenso com composições feitas especialmente para a nova narrativa. E, em meio a essa brilhante realização, existe ainda um elenco muito bem escolhido cujo resultado é bastante satisfatório. Em especial quando se trata da trindade Strode (avó, mãe e neta). As atrizes Jamie Lee Curtis, Judy Greer e Andi Matichak formaram um trio empoderado capaz de enfrentar a verdadeira face do mal.

A beleza existente na sequência de aniversário de Halloween está justamente em sua resiliência. A película cria e recria tudo o que viveu ao longo desses quarenta anos da maneira mais inteligente possível. A revisitação do mal e a sua abordagem ainda mais visceral só acrescentou a profundidade da personagem de Michael e, consequentemente, ao filme. Todo o esforço e cuidado tidos desde a pré-produção desse trabalho até o momento de seu lançamento podem ser percebidos nos detalhes de cada uma das cenas. Tudo chegou de maneira brutal, intensa e violenta como é tão característico ao senhor Myers. E tudo culminará em uma das melhores cenas do filme (e da franquia) que comprova mais uma vez que a natureza dessa narrativa reside no mais puro e cruel instinto de violência que existe no ser humano.

Assista ao trailer!

 

1 Comentário

  • Paulo Reply

    24/10/2018 at 18:27

    Tô louco pra assistir!
    Fico tão feliz por ler essa crítica, por me motivar a simplesmente ir ao cinema e ver sem medo um remake que aparentemente deu certo. Uma pena o mesmo trabalho não ter sido feito com Amityville, A Hora do Pesadelo ou Sexta-feira 13, por exemplo. Sempre senti que o universo do terror era negligenciado, espero que as coisas mudem daqui pra frente ♥️

     

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