Tudo começou no dia 25 de outubro de 1978. Desde essa fatídica quarta-feira, há quase quarenta anos, o mundo passou a conhecer a verdadeira face do mal. O serial killer Michael Myers – também conhecido como Bicho-papão (Bogeyman) ou The Shape (a Forma) – inaugurou uma nova era do terror. A violência humana mostrada em sua essência mais sangrenta e selvagem passou a ser o foco principal de discussão de diversos longas-metragens desde a estreia do Bicho-papão nas telonas.

Apesar de Norman Bates (Psicose, de 1960) ter sido o embaixador da nova perspectiva sobre os psicopatas das películas, Michael pode ser considerado o desbravador desse mundo. O universo psicológico dos assassinos nos filmes de terror se tornou uma vertente muito forte nas últimas quatro décadas – com os longas antagonizados por Jason Vooheers e Hannibal Lecter, por exemplo. A profundidade e incompreensão da maldade de cada um desses vilões é um dos fatores que mais fascinam o público. Halloween se mostrou uma das franquias mais rentáveis nesse sentido. A exploração da falta de humanidade de The Shape se tornou a mina de ouro das produtoras, fazendo dessa franquia a quarta maior arrecadação de terror nos EUA.

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A era da violência

Michael Myers é a mais pura expressão da violência existente no ser humano. Uma mistura de cognição infantil – onde ele não difere o que são ações socialmente aceitáveis – com o homem em estado de natureza, matando e lutando pelo simples instinto animal que existe nele. Michael esconde todas essas características intrínsecas a sua maldade assustadora por trás do vazio que ele personifica. Um vazio que é representado desde a escuridão dos olhos na máscara usada por ele até a própria tentativa de compreensão dos atos monstruosos dele, feita pelo dr. Sam Loomis (Donald Pleasence). O estudo da mente desse assassino é uma tecla batida e rebatida mil vezes durante os 10 filmes da franquia, normalmente personificada pela figura emblemática que é a personagem de Donald. E um dos fatores que move essa série de filmes é a falta de explicação para a maldade que existe em Michael a qual o motiva a cometer tantas atrocidades.

Graças a mitológica figura que Myers se tornou, a franquia pôde sobreviver durante anos – mesmo que através de uma condução precária – com um total de 10 filmes sobre The Shape e 1 que aborda apenas a temática do dia das bruxas (Halloween III, de 1982). Assim foi construído a saga slasher sobre um dos assassinos mais notáveis desse universo. A dificuldade em manter a qualidade de uma franquia durante tantos filmes é evidente – em especial com mudanças constantes de direção, produção e roteiro. Tais trocas afetaram diretamente nas produções, o que acarretou em algumas películas confusas, forçadas e até malfeitas.

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Os pontos fora da curva

Devido as questões distintas de produção, é possível escalonar os longas da franquia entre os melhores e piores. O critério qualitativo aplicado nessa situação é estranhamente objetivo. Dentre as tantas obras que abordam a perversidade de Michael Myers, Halloween 6 – A Última Vingança (1995) e Halloween – Ressurreição (2002) são as mais fora de órbita possível. Elas se igualariam em defeitos e insanidades criativas a Jason X (2001), onde o assassino de Crystal Lake vai para o espaço. Nessa linha de extrapolações negativas, logo vem as histórias com a suposta filha de Laurie Strode, interpretada por Danielle Harris, Halloween 4 – O Retorno de Michael Myers (1988) e Halloween 5 – A Vingança de Michael Myers (1989), que foram pontas soltas criadas apenas para explicar o retorno do Bogeyman e de suas ações sanguinárias. Dessa forma, esses quatro longas-metragens seriam os piores produtos criados como sequências para os eventos iniciados por John Carpenter em 1978.

Entre 2007 e 2009 surgiram um remake e a sua sequência. O músico, diretor e roteirista Rob Zombie deu vida a essa nova visão da história de Michael. Com muita violência gráfica e um toque meio sobrenatural, Zombie repaginou a narrativa de uma maneira confusa e completamente fora de contexto. Quando se pensa em Halloween (2007) dentro da mitologia criada por Carpenter, o filme segue uma estrada fatídica para o fracasso. Ao pensar nele como um filme slasher isolado, a nova perspectiva dada pelo diretor é até interessante, mas a sua continuação, Halloween II (2009), não agrada por se perder dentro do seu próprio universo ao adicionar excessivamente elementos extra narrativos – a exemplo das bizarras aparições da mãe de Michael como justificativa para o seu instinto assassino.

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Uma luz na escuridão de roteiros

Em meio a toda essa barbárie feita com os roteiros sobre o terror do halloween, eis que existem três películas as quais valem a pena. Halloween (1978) é, sem sombra de dúvidas, o melhor resultado da franquia, tanto que ela é a justificativa para existirem todas as continuações (boas e ruins). Em seguida existem duas produções que foram bem construídas. Halloween II (1981) e Halloween H20: Vinte Anos Depois (1998) conseguiram, apesar de não serem igualmente inovadoras quanto o original, cumprir o seu papel dentro do universo da melhor maneira possível. E, em paralelo a toda essa narrativa, existe Halloween III – A Noite das Bruxas (1982) que, mesmo fazendo parte da franquia, seus acontecimentos são isolados e nada interferem ou se relacionam com as outras produções.

Em 2018, quarenta anos após o início de toda essa trajetória, a produtora de terror Blumhouse lança, em parceria com a Miramax, um filme que é denominado como um novo caminho para o Bogeyman. A ideia do longa é ignorar completamente todas as continuações e versões criadas após 1978 e ter como sequência o novo lançamento. Halloween (2018) é uma continuação da história criada por John Carpenter e Debra Hill cujo objetivo é retomar o sentimento de medo e horror que é parte fundamental da narrativa original. Com a volta da scream queen, Jamie Lee Curtis, para o seu papel de Laurie Strode (a sobrevivente do filme de 1978), de Nick Castle (o primeiro a interpretar Michael Myers) e de John Carpenter a frente da trilha sonora; o longa retoma a essência fundamental do horror orquestrada por Myers e entrega ao público a melhor sequência já feita de The Shape. A estreia desse novo capítulo aconteceu primeiro nos EUA. Na sexta-feira passada (19), o público americano pôde revisitar esse pesadelo onde Michael Myers é o verdadeiro mestre. Coincidentemente, os fãs brasileiros poderão conferir o resultado da nova produção da Blumhouse na quinta-feira, dia 25 de outubro de 2018, data de comemoração dos 40 anos de lançamento do primeiro filme.

Halloween foi um divisor de águas indiscutível para o subgênero slasher e, consequentemente, para o horror. A obra-prima do medo dirigida e co-escrita por Carpenter (ao lado da sua parceira de longa data, Debra Hill) mudou o cinema de gênero. Ela ressignificou as imagens do terror nas telonas. O imaginário popular transformou-se após a primeira exibição dessa película e desde então não há como ver essa franquia senão como um dos maiores legados de terror da modernidade. Até mesmo a própria concepção do mal passou a ter nome, sobrenome e uma Forma aterrorizante.

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