Crítica: Cadáver

Cadáver

O universo do terror trabalha com referências. A originalidade no conceito mais puro da palavra é um objetivo difícil de ser alcançado. Poucas são as produções que, ainda nos dias de hoje, impactam e marcam a memória do público por sua singularidade. Apesar dessa dificuldade, longas recentes como The Void (2016), Corra! (2017), Um Lugar Silencioso (2018) e Hereditário (2018) conseguiram usar referências dentro dos seus respectivos subgêneros como base para criar uma história diferente, inovadora e interessante.

Alguns subgêneros do horror, contudo, não conseguem ir além das referências – isso quando as usam corretamente. As produções que têm o sobrenatural como centro da narrativa são, por exemplo, as mais repetitivas. Normalmente quando uma produção traz possessões demoníacas como temática principal, essas não conseguem passar de mais do mesmo. Depois de assistir ao clássico dessa vertente (O Exorcista, de 1973), é impossível não comparar as obras e perceber como uma película feita no início da década de 1970 tem uma essência do medo muito mais forte que seus sucessores na telona. O Exorcismo de Emily Rose (2005), Constantine (2005), O Ritual (2011) e alguns capítulos da franquia Invocação do Mal foram os poucos trabalhos mais relevantes e razoáveis numa perspectiva de criação e diferenciação dos demais.

Nesta quinta-feira (29), as salas de cinema brasileiras exibirão mais um longa-metragem cuja narrativa gira em torno de um exorcismo e suas consequências. A estreia de Cadáver tem levantado discussões interessantes e opiniões divergentes sobre o resultado dessa nova produção de uma companhia da Sony Pictures. O longa agrega em seus 87 minutos uma mistura do terror A Autópsia (2016) com referências ao clássico do subgênero (O Exorcista).

Megan Reed (Shay Mitchell) tem lutado contra vícios adquiridos após uma experiência traumática. O primeiro passo dado foi a mudança de emprego. Após largar a força policial, ela começa um trabalho como assistente noturno de admissão para o necrotério de um hospital. A experiência, que até então parecia tranquila, vai mudar completamente quando um novo e misterioso cadáver chega ao necrotério.

A premissa do terror é interessante. Com um prólogo bem encenado – e cheio de referências ao clássico do diretor William Friedkin – a produção da Screen Gems começa inesperadamente bem. A atmosfera de medo é logo estabelecida e o véu invisível do sobrenatural recai sobre o público. A tensão já estabelecida se manterá do início ao fim da narrativa comprovando a qualidade do produto. Apesar de alguns deslizes durante a trama, o resultado final de The Possession of Hannah Grace (título original) é positivo.

cadáver

Dirigido pelo holandês Diederik Van Rooijen, Cadáver essencialmente tem mais qualidades que defeitos. Não existe uma pretensão de grandiosidade na obra, mas um claro objetivo de fazer tudo corretamente. Mesmo com uma cena ou outra com algumas escolhas não muito felizes de filmagem, Rooijen fez o seu trabalho razoavelmente bem. O encaminhamento geral consegue superar os pequenos erros – em especial pelo prólogo que é fundamental para dar liga ao filme.

Ao lado de Rooijen, o roteirista Brian Sieve desenvolveu uma narrativa interessante. Apesar de não ser original – uma vez que A Autópsia fez algo semelhante – a ideia que rege a história foi boa. O uso de um espaço com características intrinsecamente macabras deu certo. A locação não se resume apenas a um necrotério que essencialmente é assustador, esse lugar de desenvolvimento da história funciona como um ambiente hermeticamente fechado, com pouca luz e diversas limitações. Esse conjunto de fatores elevam a tensão durante o andamento do longa. Atrelado a isso, a simplicidade clara nas escolhas do roteiro mostra um caminho seguro percorrido por Sieve ao fazer usas escolhas para que ele alcançasse a qualidade desejada.

Num contexto onde tanta coisa já deu errado, apostar no simples vale mais do que uma ideia mirabolante. O elenco é contido e bem encaminhado, a música é pensada e colocada nos momentos corretos e a construção das imagens simbólicos é sutil, mas segue presente e relevante – como a cruz invertida formada pelas lâmpadas centrais do andar do necrotério. Todos esses detalhes são pensados para funcionar como suporte para a possessão. O foco é Hannah Grace e suas ações demoníacas. Por essa razão o aspecto técnico melhor desenvolvido é a maquiagem do cadáver. O departamento de maquiagem criou uma estética muito boa para que a personagem fosse por si só um dos terrores da história.

Com um baixo orçamento e sem muito vislumbre, Cadáver consegue entreter o espectador de um filme de terror. As escolhas majoritariamente assertivas na elaboração da narrativa conduzem a produção para um lugar inesperado. As expectativas eram baixas quanto ao resultado desse trabalho da Sony e talvez essa seja a maior surpresa do filme. Uma ideia remodelada sobre algo que deu certo no passado – tanto em 1973 quanto 2016 – para criar um produto contido, porém correto. Os fãs de terror podem se satisfazer com esses 87 minutos com o sobrenatural. Cadáver, apesar de não trazer nenhuma inovação, consegue um bom resultado, o que o coloca num lugar de destaque.

Assista ao trailer!

 

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