Mesmo que seja óbvia e pausterizada, há algo de vibrante em Rey del ring, que empolga o espectador a acompanhar a sessão. Seja pela energia de conexão entre o elenco ou sua direção atenta, a obra engaja o público durante a exibição. A grande questão diminui o êxito da obra não é o talento da maior parte da equipe do longa-metragem e sim a história contada de forma óbvia e ingênua. Durante 90 minutos, o espectador acompanha a trajetória do boxeador e dançarino Arturo Godoy (Marko Zaror). A ausência de criação de camadas das personagens e o encadeamento previsível da trama diminuem a qualidade da produção.
No entanto, é necessário destacar o esforço da direção de Rodrigo Sepúlveda (Aurora), que procura convocar para sua encenação o jogo entre descolamento e retenção, que transmite visualmente a linguagem do boxe e da dança. As sequências de luta, por exemplo, trazem panorâmicas, planos detalhes e câmera na mão usadas com destreza, pois colocam o público na ação. Juntamente com isso, o trabalho de Rodrigo com os diretores de fotografia Eduardo Bunster (Segredos em família) e Ernesto Díaz Espinoza (Canibais), no uso da luz, revela uma consciência sobre a narrativa que está sendo contada.
Existem três tipos de ambientações criadas e fomentadas pela iluminação: o cotidiano, as partidas de boxe e as danças da Broadway. Ainda assim, existe uma ambientação geral, com o uso das tonalidades amareladas, unificam a obra visualmente. Além disso, há uma contenção de movimentos de câmera nas sequências mais íntimas, que ajudam os instantes das lutas a cresceram. Dentro desta lógica, a química do trio central também ajuda a elevar a potencialidade do longa. Arturo Godoy, Leda Urbinati (Fiorella Bottaioli) e Gabriel Meredith (Benjamin Vicuña) se equilibram em cena e por isso a dinâmica deles funciona.
É bem verdade que a obra se vale de artifícios ficcionais para tratar de uma figura real, como em quase todas as cinebiografias. Mas, esse teor fantasioso é válido aqui, porque proporciona uma atmosfera onírica para a narrativa. Cada personagem convoca uma emoções mais intensa: a força de Godoy, a animação de Leda e a resiliência de Gabriel balanceiam e cria uma lógica de cena criativa e vibrante. Além dos deslocamentos físicos, os corpos em si e os tons das falas também contam com o equilíbrio dos 3 papéis, com destaque para Vicuña, que possui talento e carisma e faz com que a sua voz em off dê um colorido a mais para a história.
Ainda assim, Rey del ring não pode ser considerado um filme bom porque as atuações do elenco e o esforço da direção não salvam a ausência de profundidade do enredo e suas personagens. É cansativo como em cada ato, a plateia já saberá o que vai se passar. A forma como os eventos são colocados na tela são de uma ingenuidade tremenda. Falta tensão real, com discussões mais palpáveis, que poderiam ser sobre questões sociais (xenofobia, machismo, classismo etc. que estão lá, mas bem superficialmente) ou das próprias emoções e relações interpessoais das figuras principais da história (há um triângulo amoroso aqui e tudo soa tão banal quanto o sonho de Arturo de ser campeão do mundo).
Desta maneira, o resultado geral é abalado pela falta de aprofundamento dramático. No entanto, o carisma dos atores e as composições visuais diminuem os impactos de um roteiro frágil. Por este motivo, a sessão vale a pena, porque diverte e empolga. Contudo, é melhor não esperar muito do longa, para não causar maiores frustrações em quem assiste. Uma boa recomendação é assisti-la em um sábado à tarde, comendo pipoca e tomando uma bebida gelada!
Direção: Rodrigo Sepúlveda
Elenco: Marko Zaror, Fiorella Bottaioli, Benjamin Vicuña
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