Um dos elementos mais importantes de uma obra audiovisual – que parece dado como certo para muitos , mas que é difícil de conseguir – é a conexão do espectador com as personagens. É necessário que o público se importe, principalmente, com as figuras centrais retratadas na tela. Espina é um desses casos de acerto, é quando a composição da narrativa e aqueles que a habitam se afinam e entregam um resultado que engaja quem assiste, que faz com que a sessão seja instigante, divertida e emocionante. O principal êxito deste filme, assim, é o seu trio central: Jonathan (Jonathan Benaim), Eduardo (Aarón Díaz), e Ángela (Paulina Mondragón).
Seja em termos de atuação ou da própria escrita de Daniel Poler – diretor e roteirista do filme -, há um equilíbrio entre as três personagens, um entrosamento e um jogo de cena que fazem com que a sessão cresça. Jonathan traz um sarcasmo, com força e vulnerabilidade presentes em sua construção. É interessante como a sua condição de homem PCD é colocada pelo intérprete. Jonathan assume seus desafios e o que fere a sua carne por sua condição, porém ele também acentua o que torna ele um homem mais completo, justamente por isso. Eduardo é o tenso, mais rígido e, por isso, ele se vale do tônus corporal para expressar essas características e se desloca mais lentamente, dosando a aceleração dos seus outros companheiros de aventura.
Já Ángela é mais gentil e animada, logo, sua voz e seus movimentos acompanham a lógica do seu papel. Ela é a esperança e a alegria que faltavam para a dupla. Na interação, também há crescimento e as personagens passam pela transformação clássica da jornada do herói. É como se eles se deslocassem em conjunto, rumo ao novos desejos e às descobertas. Mas, as mudanças não são necessariamente moralistas e é aí que Espina é grande. As revoluções internas vão se externalizando no caos das ações exploradas pela narrativa, sim, mas para a quebra com o que os prendia e os deixam com medo e não na direção de uma bondade maniqueísta.
Assim, existe todo o contexto da viagem, que marca um clima de expedição e busca e as dinâmicas de desenvolvimento das figuras dramáticas estão dentro da história, porém sempre com uma vontade de humanizá-las, colocando-as sempre no limite do certo e errado. Neste sentido, o trabalho da direção de fotografia e da finalização fomentam esse olhar para as personagens de forma íntima. O verde a amarelo intensos são os momentos em que o trio está realmente mostrando quem é, seja por um mal estar físico, como quando Ángela vomita, quando os três vão a um show de drag ou quando Jonathan precisa ser enxuto depois de ter ficado sozinho na chuva.
Neste sentido, existem algumas temperaturas que aparecem com constâncias e elas são trocadas intensamente e, em diversos momentos, de forma brusca. Essas viradas visuais também demarcam reviravoltas da trama. A inconstância dos sentimentos e as angústia do grupo se revelam nessa visualidade intercambiante. Ao mesmo tempo que a saturação, as sombras e cores são plurais, a câmera se movimenta com muita cautela e permanece mais parada, com planos mais abertos, deixando que o espectador observe os deslocamentos. O que tem uma maior mobilidade aqui é a marcação de cena, que revela os pontos de maior e menor destaque em cada momento do enredo.
As tensões, brincadeiras, aproximações e afastamentos do grupo também são destacados assim. Um grande exemplo de imagem fixa, com modificações de sentido progressivo, é a sequência do grande “confronto” de Jonathan. Ele e o seu “inimigo” estão prestes a ficar cara a cara. Em um zenital, Poler revela as cadeiras de roda se mexendo, criando um instante de grande suspensão. Esses pequenos segundos parecem se ampliar devida a noção de efeito estético da equipe do filme, que retém o tempo de tela daquele confronto. Desta maneira, Espina consegue equilibrar seus momentos trágicos e cômicos, entregando uma boa relação entre as personagens e a plateia.
Há no longa-metragem uma visão forte da direção e sua equipe parece estar afinada. Ainda que em certos trechos a produção soe ingênua por retratar situações absurdas sem refletir sobre elas, esse dado não compromete nem de longe a totalidade da obra, porque o estranhamento – mesmo que dentro da ingenuidade – é inserido como parte da sua linguagem. Assim, o resultado geral é positivo, empático e encantador.
Diretor: Daniel Poler
Elenco: Jonathan Benaim, Aarón Díaz, Paulina Mondragón
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