40º Festival Internacional de Cinema de Mar del Plata: 3000 km en bicicleta

40º Festival Internacional de Cinema de Mar del Plata: 3000 km en bicicleta
4.5

Para retratar toda a rebeldia, a inventividade e espírito livre de Iñaki Mazza, 3.000 km en bicicleta se vale de recursos visuais que transmitem ao espectador múltiplas camadas da personalidade do protagonista. Para que seja possível mergulhar nesta narrativa, Iván Vescovo e sua equipe observam o jovem de perto, de forma tão íntima e radical que a imagem é granulada, como se quem o observa, o visse tão de perto, que não fosse capaz do equipamento acompanhar com nitidez – bom, isso é metafórico e literal também. Esse padrão estético deste documentário argentino provoca não apenas uma maior imersão como também a sensação de juventude e aventura, que casam com o tom da obra.

Iñaki se tornou atleta de BMX com 3 anos de idades e já competia aos 9. Durante o longa-metragem, já adulto, ele narra o seu descontentamento com as regras dos patrocinadores e das competições e como isso influenciou a sua desmotivação com o esporte. Com esse relato como start, a jornada do filme se inicia e um turbilhão de elementos são costurados. O roteiro e a montagem possuem grandes méritos, neste sentido. Há um desenho de jornada do herói completa em 3.000 km en bicleta, com direito a plot twist*, desenlace e encerramento redondo.

A partir da sua aproximação com Iván, das reflexões sobre seu tempo de atleta, da saudade de sua namorada e de um momento de conexão consigo mesmo ao usar cogumelos, Iñaki decide que vai chegar até a sua companheira com sua bike. No entanto, ainda que este seja um instante poderoso da trama, antes mesmo de toda essa trajetória por quase toda a Argentina começar, o estabelecimento da conexão com a personagem central já foi feita e, por isso que o efeito dessa escolha de Iñaki já surte efeito desde o seu anúncio.

O roteiro entrega, desde os primeiros minutos de projeção falas impactantes do garoto, misturadas com enquadramentos bem fechados de se rosto expressivo e planos gerais de suas empreitadas na pista de BMX e na estrada. A sensação é a de que a câmera está sempre na mão, passando essa impressão de proximidade e imediatismo da captura dos movimentos. Ainda assim, Vescovo brilha porque há estabilidade em suas filmagens. Aqui, é quase como uma emulação de espontaneidade, porém não ao ponto de ficar artificial.

Dentro desta lógica, a plateia também acompanha encontros de Iñaki com pessoas próximas a ele. Os seus pais e amigos estão presente no enredo e essas aparições surgem e permanecem fluidas dentro da história, bem como a sua namorada. Nada parece forçado e isso ocorre, principalmente, pelo jeito leve e descompromissado do protagonista falar. Contudo, a câmera na mão, o granulado e a ausência de tremores bruscos nas cenas de conversas entre as figuras da narrativa contribuem ainda mais para essa impressão.

É curioso observar como essa atmosfera Gus Van Sant encontra programa adolescente da MTV, dos anos 2000, funciona organicamente neste doc. Isto porque o diretor demonstra observar Mazza e dialogar com ele, inclusive se inserindo em trechos da produção e conectar sua estética enquanto diretor com a personalidade de Mazza. A impressão que o cineasta passa é a de conhecimento sobre o universo do ex-esportista, fazendo com que as conversas entre os dois sejam profícuos e com certa profundidade.

Ainda assim, é preciso pontuar que a obra escorrega na qualidade dos níveis de interação de Iñaki com seus pais e com a namorada. Esses relacionamentos mais delicados e relevantes do menino são postos em voga, porém sem uma investigação maior. O principal incômodo é que, tirando seus pensamentos em relação ao BMX e sua bicicleta, Iñaki Mazza não elabora tanto. Esse fator não compromete a totalidade do material, porque alguns elementos não ditos e que não estão exatamente nas imagens, podem ser imaginados, através de detalhes da personalidade de Iñaki que são trazidos. Mesmo sendo um tanto superficiais, aparecem, de alguma forma.

Desta maneira, 3.000 km en bicileta é um título coberto de equilíbrio entre técnica e criatividade. Os momentos aventurescos animam por contar com uma decupagem que contribuem para uma melhor fruição e aumenta da adrenalina. Paralelo à isso, os instantes íntimos apresentam coesão e coerência com quem é essa figura emblemática e polêmica. Vesconvo faz a proeza de conduzir um projeto que proporciona diversão e é cuidadoso artisticamente.

Diretor: Iván Vescovo

 

*plot twist: muitas pessoas na internet começaram a chamar plot twist apenas de plot, porém plot é premissa e plot twist é a virada da trama dessa premissa.