É curioso notar como a tentativa por complexificar uma obra pode levar ela ao caos. Ao tentar imprimir camadas plurais sobre um assassino em serie da vida real, Doutor Monstro peca por falta de coesão, apuro estético e tecnico.
É triste proferir palavras tão negativas sobre um filme brasileiro, mas a grande verdade é que o novo longa-metragem de Marcos Jorge (Estômago) é desagradável. Em termos de parte técnica, falta unicidade visual.
As temperaturas e texturas não dialogam entre si, por exemplo. Dividida em atos, a produção convoca visualidades distintas nessas transições. No entanto, isso não chega de forma positiva no ecrã, não apenas por falta de coesão visual e narrativa.
A arte do longa incomoda também por conta da escolha de aderaçamentos. Um exemplo forte é o quarto de Cláudia (Taís Araújo), que parece que nem foi adereçado. Como o espaço não dialoga com a identidade da obra e muito menos com a da personagem, a impressão é a de que o ambiente é aleatório e foi ocupado sem muita preocupação com as filmagens.
A direção não colabora para melhorar essa perspectiva. A movimentação em cena é truncada e artificial. Os planos abertos também não favorecem a exploração de emoção das figuras dramáticas.
A sensação que Marcos passa é a de que ele não tem certeza do que quer mostrar na tela. Mas, se em termos de mise-en-scène existem questões desafiadoras de acompanhar, o desenho de som consegue ampliar o cenário desta baixa qualidade da obra.
Existe um desespero em criar desconforto no público através dos sons. Todavia, os ruídos inseridos no longa não funcionam porque não estão à serviço da narrativa e nem parecem mixados. É preciso realizar a construção de atmosfera e conectar as sonoridades com os acontecimentos postos nas sequências.
Além disso, não adianta pôr diversos barulhos altos aleatoriamente. É necessário que a mixagem entre e equilibre esses elementos. Além de todos estes pontos, a montagem também atrapalha a fruição.
Faltou ponto de corte para o montador ou não souberam escolher mesmo? Não há como afirmar com certeza, porém a fluidez das cenas se perde com a edição que usa exacerbadamente fades e esquece a existência do raccord.
Um momento que ilustra o fato é a sequência do argumento final dos advogados. O efeito desejado pela equipe não é alcançado porque os instantes selecionados para a transição são de quebra e não de continuidade.
Por fim, para coroar a lista de desagrados existe o discurso que cerca a trama. A vítima, chamda de Carmem (Marcelina Fialho) na história, é tratada de maneira quase jocosa. Na realidade, todas as mulheres são representadas em um tom apenas, sem camadas ou desenvolvimento.
A maior busca de Doutor Monstro é explorar e trabalhar as complexidades de Farrah e isso já diz muito sobre a produção. Ainda assim, a maioria dos integrantes do elenco se esforça para dar vida aos seus papéis.
Essa é a grande tristeza dessa que vos escreve. Taís Araújo, Guilherme Weber, Otávio Linhares e Saravy parecem procurar as intenções de suas personagens e imprimir organicidade nas falas. Contudo, não adianta muito, porque visual, textual e sonoramente o longa é artificial.
Direção: Marcos Jorge
Elenco: Taís Araújo, Guilherme Weber, Marcelina Fialho
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