O maior problema de inserir elencos diferentes em uma obra ficcional, seja por histórias paralelas ou temporalidades distintas das personagens, é que uma parte específica pode se destacar positivamente mais do que a outra. É isso que ocorre com Malecón. Quando o trio principal está na fase da infância, a trama é mais instigante e o elenco atua melhor. Aos poucos, a obra vai caindo e perdendo o brilho. Além disso, o espanhol Carlos Larrazabal (Engage) reforça em sua direção e roteiro – escrito ao lado de Fabián Suarez (Cherri) – um estereótipo de América Latina, em uma lógica de exploração da pobreza e olhar europeu (colonizador) que faz com que o filme se transforme em previsível.
As posturas e ações das personagens passam a ser óbvias, dentro desta sistemática. Quando Elvis (Cesar Domínguez) retorna para seu bairro, após anos de prisão, o jovem quer se estabelecer com seu amor de infância, Yuli (Camila Rodhes). No entanto, a moça já está casada e com um homem que aparenta ser perigoso. Ao redor de toda essa base clichê, há uma ausência de saída para uma vida boa que não conte com pobreza ou ações escusas. É entediante acompanhar uma projeção que cada sequência tem ações fáceis de prever. Até mesmo as temperaturas escolhidas, com filtros amarelados e esverdeados, são os mesmos de exploração da pobreza em filmes passados em países latinos (quando o cineasta é de fora ou rico, como o caso de Cidade de Deus ou Baronesa).
Há pouco de uma Cuba mais plural e efervescente. Há pouco de desenvolvimento de personagem. Há menos ainda cuidado com a premissa. O assassinato da mãe de Elvis, por feminicídio, e suicídio de seu pai, passam como um mero detalhe para a narrativa. É como se este plot fosse uma memória distante para Elvis. Falta olhar para o protagonista e explorar suas camadas. Em diversos momentos da sessão, fica uma impressão de que o jovem é o mero observador de sua própria vida. Esse traço poderia ser usado à favor da história, mas, pelo contrário, o distanciamento do papel principal é progressiva, até que ele perde a centralização dentro do enredo.
Yuli toma o comando e governa os caminhos do filme por uma boa parte do segundo ato. Todavia, esse desvio de caminho não funciona, porque não houve uma construção para que essa força de Yuli funcionasse. Ao mesmo tempo, quando o foco da produção se torna Yuli, ela também não coordena o que lhe ocorre. Desta maneira, a impressão que os roteiristas deixam é a de confusão: sobre o que eles queriam falar e como queriam. Nesse sentido, Larrazabal, ao lado do diretor de fotografia, Gevorg Gev Juguryan (Golpe de Superação), procuram construir uma encenação pautada em acompanhar essas personagens.
É curioso observar como o que o roteiro não faz, a câmera faz. Por isso que os quadros mais fechados, com movimentações da direção, transmitem as emoções das figuras centrais da narrativas. Assim, toda a urgência de Yuli e Elvis – Martin (Omar Rolando) fica meio escanteado depois que o trio fica mais velho – é revelada pela proximidade de seus rostos no ecrã. Os deslocamentos suaves, em traveling ou pan, passam uma sensação de cortina que se abre e aproxima o público. A intimidade da plateia com a trama está diretamente relacionada ao como a decupagem insere quem assiste com calma e pouca distância física.
Ainda assim, a forma de direção de Larrazabal é repetitiva e torna algumas cenas piegas, justamente pela utilização do recurso da aproximação da câmera. Um exemplo é a cena entre Yuli e Elvis, depois que os dois ficam juntos pela pirmeira vez. Com a junção da música romântica de fundo, o momento soa apelativo e pode desconectar o público com o exagero de close e canção de amor.
Direção: Carlos Larrazabal
Elenco: Yordanka Ariosa, Cesar Domínguez, Luis Alberto García
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