XXI Festival Panorama Internacional Coisa de Cinema: Morte e Vida Madalena

XXI Festival Panorama Internacional Coisa de Cinema: Morte e Vida Madalena
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Construção de personagem, trama redonda e elaborada, timing cômico, elenco coeso, criatividade, decupagem à serviço da narrativa, Morte e Vida Madalena é bom longa-metragem. Se não contasse com algumas pequenas barrigas, a produção teria ainda mais êxito.

O que acontece aqui é que alguns conflitos e situações são esticados, tornando-se prolixos dentro da história, o que, consequentemente, cansa o espectador. Mas, a verdade é que esses instantes são poucos e não fazem do longa uma obra ruim.

Na realidade, Vida e Morte Madalena é entretenimento de excelência, porque consegue realizar uma boa comédia no seu sentido mais primevo da história das artes.

Ou seja, mesclando crítica social, com aprofundamento das relações humanas, o público cria uma noção de intimidade com as personagens e distanciamento pelo ridículo que elas convocam, ampliando o estado reflexivo.

A junção do debate sobre os desafios de se gravar um filme, de ser uma mulher contemporânea, lidar com homens criados por um sistema que os deixa mimados e incapazes de serem funcionais em sua totalidade e sobreviver ao sistema capitalista está lá na narrativa, de forma inteligente, porque é direto/gritante, porém também sutil ou através de alegorias.

Além disso, é importante que o cinema sempre reforce para o público geral como fazer audiovisual não é fácil. Há todo esse caos normalizado, que artistas precisam lidar enquanto criam suas obras, com toda a pressão para pagar as contas, fazer um bom trabalho e ainda ter que lidar com todas as idiossincrasias de seus colegas de set.

A escolha de Guto Parente em inserir um universo realista/naturalista das filmagens de Madalena versus a trama intergalática que a protagonista grava aumenta a potencialidade dessa reflexão sobre o que está sendo mostrado na tela. 

Porque há, de um lado, um estranhamento quando a textura da imagem muda ou quando os figurinos do filme dentro do filme levam a plateia para uma distopia fantástica que parece fazer mais sentido que a realidade. Todos os absurdos da vida de Madalena são muito maiores do que esse do mundo fantástico que ela filma.

Curiosamente, pode-se criar aqui um paralelo para outros mundos, pessoais e da sociedade, no qual a distopia mais insana não será tão dantesca quanto o cotidiano sistemático do pagar boletos e do não importa se você ama cinema ou não, a vida e a morte estão acontecendo.

Neste sentido, é necessário destacar o brilhantismo de Noá Bonoba ao construir sua Madalena. Entre perplexidade diante do que ocorre com ela e costume em ser o esteio da vida de todos que a cercam, Madalena apresenta uma certeza titubeante e é nisso que a atuação de Bonoba se mostra genial.

Noá faz isso nas pausas verbais e corporais, em seus olhos que circulam pelo espaço, como se ela buscasse uma resposta no infinito e lembrasse que está tudo dentro dela. A intérprete também profere as palavras dos diálogos do roteiro com uma consciência de construção de papel que se vê pouco nos palcos ou no ecrã.

A dinâmica entre aceleração, lentidão e retenção é a chave para retratar essa mulher exausta, porém criativa, feita por Bonoba. E ela não deixa essa dança cênica ficar apenas para si.

Noá leva tudo isso para a contracena desta maneira também. E quando seus colegas estão com ela todos entram nesta mesma sintonia. Assim, a “brincadeira” de relacionar com o espaço, e entre si, funciona. Um exemplo forte disso é quando Madalena descobre que o pai de Natasha (Nataly Rocha), assistente de direção do filme dentro do filme e uma das melhores amigas da protagonista, faleceu, e quase todos do set a abraçam. 

As temporalidades de locomoção e de fala fluem entre velozes e prolongadas, e que vão se extendendo até viraram conforto para Madalena, o que também acaba criando quase uma impressão sensorial no público.

Dentro desta lógica, o trabalho de Parente fomenta essas impressões. É curioso observar como a seleção dos enquadramentos e movimentos dos atores aumenta a fluidez do enredo. A equipe do filme dentro do filme aparece mais em planos gerais, com gestos mais contidos e de ações mais cotidianas. 

Madalena é vista de perto, com efeitos de câmera que a cercam, que se aproximam e se afastam. Ela está constantemente em análise e a escolha de investigar esta mulher com calma e pluralidade de ângulos e movimentos ampliam essa intimidade com a história.

Essa lógica faz com que seja nítido durante a exibição quem comada a trama e qual é o foco da produção.  Apesar de em alguns momentos, como o da greve, esses recursos ficarem repetitivos, na maior parte da sessão eles funcionam.

Assim, Morte e Vida Madalena é um bom título do cinema brasileiro. Com criação de proximidade com o enredo e suas figuras dramáticas, o longa diverte e angústia na medida.

Além do mais, é sempre bom ver Marcus Curvelo, mesmo que como coadjuvante, fazendo o seu clown de sempre, que basta aparecer na tela para que gargalhadas ecoem na sala de cinema. 


Direção: Guto Parente

Elenco: Noá Bonoba, Nataly Rocha, Marcus Curvelo