15º Olhar de Cinema: Quase inverno

15º Olhar de Cinema: Quase inverno
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Quase Inverno é um longa-metragem paranaense, dirigido por Rodrigo Grota. A obra é livremente inspirada na peça As Três Irmãs, de Anton Tchekhov.

Apesar do desejo de adaptar uma obra tão importante ser válido, o que falta aqui são os elementos pilares do audiovisual: compreender sobre adaptação, sobre atuar para a câmera e como decupar cinema.

Diversas vezes, colegas da crítica comentam que um filme parece teatro ou novela, como se esse aspecto fosse algo ruim. Ambos os formatos podem inspirar uma boa produção cinematográfica.

Contudo, essa discussão é maior, intensa e seria um curso de um semestre. O que importa nisso tudo então? O teatral de Quase Inverno é quando o termo pode ser utilizado como algo ruim.

Porque o ideal do filme é que ele seja pensado como audiovisual. E os incômodos aqui são diversos. A começar pelo uso de diversos tamanhos de planos na mesma cena.

Em uma sequência, essa percepção se amplia. Os três irmãos mais velhos fazem seus monólogos. A transição entre os enquadramentos não é suave, tampouco faz sentido narrativo.

Parece que a direção queria criar um efeito dramático, no sentido do gênero drama mesmo. No entanto, um distanciamento com a plateia se estabelece.

Isto porque essas idas e vindas de quadro fazem com a plateia quebre a continuidade visual. As atuações não ajudam a suavizar essa fruição truncada.

A sensação que o elenco passa é a de que não entenderam o texto e nem as motivações de seus papéis. Há muita declamação, para um texto realista.

É complicado acompanhar uma produção baseada em Tchekhov, na qual as frases são ditas sem reflexão, sem tônus no corpo e sem compreensão do que se é proferido.

Porque quando se entende as intenções de uma personagem, o ritmo é alcançado. Isto é, as alternâncias de velocidade e o uso dos planos baixo, médio e alto* ocorrem porque fazem sentido.

Mas, em Quase inverno o elenco parece usar códigos de boa atuação sem refletir se o uso é preciso e sem demonstrar compreensão do texto verbal.

Um ator não pode usar uma regra de variação tonal e de altura corpórea só porque ela existe. Desta maneira, os diálogos fogem da organicidade. E a decupagem não ameniza a ausência de habilidade cinematográfica dos interpretes.

E é difícil escrever tudo isso, porque é nítido que a equipe está se esforçando para tentar fazer um longa em um estilo “drama familiar de dores profundas, com suspense”. 

Todavia, nem a suspensão acontece e nem  dramaticidade é crível, por conta das atuações e da direção, mas também da própria lógica de roteiro, que escolhe idas e vindas, porém se perde.

Na hora de contar sobre os traumas da irmã caçula, o filme usa flashbacks, mas entre ir e voltar, as personagens vão se perdendo e parecem que são outras, sem construção ou aparente intencionalidade.

E é uma pena todo esse caos, porque a equipe de arte também deve ter se esforçado bastante para adereçar a casa na qual a história se passa. 

Apesar de visualmente ser dificil estabelecer em que época a trama se passa e isso não parece proposital, os tecidos utilizados pelo figurino são vistosos e os objetos de cena bem acabados.

Há aqui uma tentativa forte de trazer um primor para a cena. Desta maneira, Quase inverno pode ser apenas um filme imaturo. Talvez, seu grande problema seja mirar em uma historia muito distante dos sentimentos e/ou da experiência de quem está criando. 

Obviamente, “o poeta é um fingidor” e arte é um trabalho, a equipe poderia emular um interesse, mas não o desconhecimento.  Nesta obra falta motivação e compreensão deste universo europeu.

Não basta gravar um longa em um lugar frio, com roupas de bom corte e esperar que a morbidez cotidiana de Tchekkov se instale.

E, apesar de artistas merecerem todo respeito do mundo por suas tentativas, a plateia também necessita desse mesmo respeito. Quando uma equipe decide filmar um produto audiovisual é extremamente relevante pensar até onde aquele grupo consegue entregar.

Será que não é melhor simplificar a produção e focar em mais tempo de trabalho da direção geral com a de fotografia? Ou… Mais tempo de preparação de elenco? Questões a serem pensadas sempre no cinema.

* aqui falando da parte fisica do ator e não da câmera.

Direção: Rodrigo Grota

Elenco: Simone Iliescu, Ondina Clais, Luiza Quinteiro