XXI Festival Panorama Internacional Coisa de Cinema: A vida de cada um

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É impressionante como um realizador que foi diretor de fotografia de obras como Árido Movie (2005) e Dona Flor e seus dois maridos (1976) possa estar no comando de um longa-metragem como A vida de cada um. Falta cinema aqui, em sua mais básica concepção. É por isso que para falar deste filme é necessário pedir licença à cara leitora*, para uma pequena digressão.

O que seria a arte cinematográfica se não uma mistura de linguagem e discurso? A técnica audiovisual possui lógicas. É necessário que o público enxergue uma história através de imagem e um som pensados. Existem regras para que tal objetivo seja alcançado, regras essas que podem ser quebradas, caso a prática seja estratégica, lógica e esteja à serviço da narrativa.

Aí, então, tem-se ele, o discurso. Este é imprescindível para qualquer produto midiático que se preze. Ele precisa ser coerente, amarrado e, obviamente, necessita estar embebido do progresso das ideias. Mentalidades ofensivas, visões estapafúrdias e preconceituosas de indivíduos e comunidades são inquestionavelmente dispensáveis e, muitas delas, podem ser até crime (racismo, transfobia, msoginia etc.).

A ofensa em A Vida de cada um não chega a ser violenta ao ponto de ser criminosa, ainda bem, mas ele é um exercício doloroso para as vistas e os ouvidos. Veja bem, leitora* que ainda não desistiu deste texto, a primeira coisa que se nota quando a projeção se inicia é que a saturação está baixa e o contraste alto. Este fator  incomoda, porque ou a luz não foi pensada para aquela setagem ou a equipe queria criar uma sensação de penumbra, que não funciona, porque fica difícil enxergar o que está acontecendo em cena.

O longa também passa uma impressão de baixo valor de produção, justamente por essa escolha de tonalidades. Além disso, inserir essa opacidade e tom sombrio antes de que exista uma relação estabelecida entre produto e público faz com que pareça um efeito pelo efeito, uma vontade de criar tensão, que não foi elaborada.

É importante refletir que encontrar uma exibição com imagem lavada e sem personalidade é frustrante, mas o exagero disso também é incômodo, sobretudo quando ferramentas técnicas não são usadas de forma coesa com a narrativa.

Mas, tá, se esse fosse todo o problema de A vida de cada um essa crítica seria mais enxuta, porém esse só é o começo de um exercício escrito sobre esta produção, pelo assombro, de fato, que acometeu esta crítica de cinema, enquanto a assistia. Dois pontos cruciais, repito: cruciais, do audiovisual são jogados ao léu aqui. Decupagem e montagem.

Todavia, é um tanto árduo afirmar com exatidão qual foi o maior erro neste contexto. O que é possível dizer é que os quadros e movimentos de câmera, salvo em raras sequências, não ajudam na criação de universo ficcional ou a traduzir as emoções das personagens. Os pontos de corte são escolhidos da pior maneira possível. E o que isso quer dizer, professora? Quer dizer que a plateia perde a noção de continuidade da cena, não apenas de temporalidades, porém do que está efetivamente acontecendo.

E quando essas situações constrangedoras de edição ocorrem, não pense você, cara leitora*, que aparece no ecrã algo disruptivo, que elabora um sentido plural e profundo.  Não, é erro mesmo, de você olhar para tela e perceber que algo está estranho. Essa percepção pode chegar também porque os eixos são invertidos.

Em um dado momento, no qual a protagonista conversa sobre um esquema com seu paquera, a troca de eixos fica insuportável e já não se sabe o que se passando de fato, se o tempo vai passar, se algo vai acontecer, ou se o troca-troca de lado é apenas uma fatídica escolha. Nesse sentido, as mudanças de época são desconfortáveis também, porque não são feitas de forma fluida e coesa.

As informações de passado e presente não aparecem de maneira a entregar pistas da vida da personagem principal. Esse quebra-cabeça deveria ser para compreende as motivações dela e o que supostamente ocorreu com sua mãe. Não, na realidade, nem mesmo quando as situações se passam na mesma linha temporal existe uma coerência.

Talvez, a intenção fosse não subestimar o espectador e isso é louvável, mas faltou criar sentido conexo. O pai de Flávia  vai fugir, vai morrer, vai matar, vai se vingar, vai o quê? Flávia (Bianca Comparato, Irmã Dulce) vai vender cocaína, já vendeu, não vai mais vender, mas vai sim vender, só que agora vai ser vereadora, porém vai vender cocaína, não, pera, não vai mais não, porque…é, porque…

Ninguém sabe exatamente qual o motivo de enfiarem tantas ações amontoadas no roteiro, de Salles com  Leo Garcia, que não desenvolvem as figuras dramáticas e nem a trama. Mas, para não abusar do espaço digital que abriga esta critica, caminhemos para o desfecho deste material observando o quanto o discurso de A vida de cada um é problemático.

Apesar de fazer um esforço hercúleo para ser progressista, quem assiste observa aqui uma visão branca e elitizada do tráfico de drogas e da favela. Longe desta que vos escreve palpitar sobre a vida pregressa de Salles e Garcia, mas a história aqui parece refletir quem eles são. Assim, a impressão que a obra passa é de que ela foi escrita por pessoas que não conhecem o ambiente retratado.

A sensação é de que Tropa de Elite encontrou Cidade de Deus, eles ficaram confusos e não souberam o que fazer, porque os diálogos são permeados de gírias e palavrões e ninguém saber o que está dizendo ou fazendo, mas estão ali no morro, com policiais corruptos, brigas por boca e…? Quem são essas pessoas? Ninguém sabe. Essas discussões de certo renderiam longas conversas, mas vamos fazer um exercício socrático e deixar nesta crítica perguntas que podem iluminar o pensamento sobre qual é a razão do longa de Salles convocar tanta angústia.

Como são representadas as personagens negras? Qual o objetivo da produção ao passar o bastão do homem branco corrupto para a mulher branca corrupta, pensando no sentido de avaliação sobre o patriarcado em relação às mulheres? Por que todos os arquétipos de quem nasceu e sobe o morro são negativos? Cadê as mulheres moradoras do morro?

Ou, ainda, não há saída para quem mora em comunidade? Por que não há nenhuma representação aprofundada dos sentimentos das figuras dramáticas que estão na tela, a não ser a do pai da “mocinha”? Por que em 2026 lançaram um filme de brancos sobre brancos que sobem o morro? Por que fizeram isso e ainda fizeram mal e porcamente?

São muitas perguntas, mas para não dizer que 110 minutos foram surrupiados da plateia, é importante enaltecer a construção de papel feita por Bianca Comparato. Ela é uma excelente intérprete em tudo que faz, mas aqui ela merece uns pontos a mais, por tudo que está ao seu redor. A

inda que a direção de elenco não tenha visto os buracos enormes e as quedas de dinâmica de contracena, Comparato sustenta a sua Flávia. A artista imprime uma mistura de carisma e odiosidade para Flávia, que, de certa maneira, prende a atenção de quem acompanha o enredo. Assim, A vida de cada um é ruim, mas, é melhor assistir a filme ruim nacional do que estrangeiro, ok?

Além do mais, em tempos de red pills e jogo do tigre, é melhor ver o esforço de Salles para denunciar mazelas da sociedade do que ver qualquer coisa de pessoas contemporâneas que são realmente ofensivas no sentido criminoso da palavra.

 

*leitore/leitor

 

Direção: Murilo Salles

Elenco: Bianca Comparato, Caco Ciocler, Drico Alves

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