É impressionante como se confunde muito ter um brainstorming promissor com uma boa ideia de filme.
Deyse ex machina é um abarrotado de idéias, mal filmadas, que se salva apenas por um único fator: a atriz protagonista.
O que a equipe do curta-metragem de Jasmelino de Paiva quer contar? A história gira em torno de Deyse, que decide parar de fumar, no dia de seu aniversário de 55 anos.
E é isso. Nada mais. O único conflito explorado é a vontade de fumar de Deyse. Apesar de alguns elementos sobre a vida dela serem jogados na trama, eles não são desenvolvidos.
Não existe aqui uma construção de narrativa coesa e concreta, apesar da obra se apresentar dentro de uma lógica cinematográfica tradicional.
As vivências, os conflitos e o cotidiano da personagem principal são trazidos, ou melhor, comentados brevemente, sem trazer reflexão ou investigação.
Um exemplo é a questão do filho de Deyse, que parece um problema, mas ao final da exibição, não fica nítida a razão de sua angustia pela ausência do menino. Ele aparece faceiro e risonho apenas.
Na verdade, Deyse passa o curta inteiro de um lado para o outro, porém ela não tem um propósito definido e não sofre nenhuma transformação.
Ainda assim, olhando para toda essa lógica ,a produção poderia ofertar um prazer sensorial estético. O cinema tem dessas!
No entanto, visualmente o filme também incomoda. O constante uso de câmera na mão tira o ritmo das cenas. Se não existe equilíbrio visual e de velocidade, não há um resultado rítmico apropriado.
Na maioria das vezes, é necessário parar, criar um respiro, e situar o público sobre a história que se quer contar.
Além disso, o uso da luz parece equivocado. Além da iluminação estar quase sempre direcionada para o lugar de menor atenção, ela não cria sentido junto com os enquadramentos.
Um exemplo, é a cena em que Deyse conversa em uma mercearia. Atrás das atrizes centrais para a sequência, tudo está estourado. Já elas, ficam no escuro.
Durante toda a sessão resta essa impressão de que a equipe fez tudo de forma muito amadora, que falta zelo narrativo e apuro estético.
Mas, a exibição não é um pesadelo dantesco, porque Diva Gonçalves aparece para criar o mínimo de sentido dramatúrgico para sua personagem.
Com consciência de como se posicionar para câmera, Diva consegue criar retenção e deslocamento coesos, mesmo com a ausência de steadicam, que faz a imagem não para de se mexer.
Enquanto a intérprete dirige ou caminha, a sua respiração é trabalhada de tal forma que sua voz sai com organicidade.
A plateia consegue vislumbrar quem Deyse é, porque Diva traz elementos da personalidade desta figura de forma vibrante.
Um exemplo é quando ela encontra seu amigo Pão de Mel. A cadência da fala se transforma, enquanto o rapaz vai dialogando com ela.
Ao mesmo tempo que Diva imprime tensão, ela convoca vulnerabilidade ao seu papel, ao mesclar titubear com tons graves na fala.
Assim, a atriz revela um conhecimento de criação de personagens e entrega um bom resultado.
Ainda que Deyse ex machina não siga o mesmo caminho que o de Diva, a projeção pode ser proveitosa para alguns. Talvez, atrizes e atores iniciantes possam olhar para este título como um material de estudo.
Porque, a verdade do audiovisual é que nem sempre as melhores condições de trabalho serão entregues, diversas vezes as equipes possuem ideias inexequíveis, porém a entrega do elenco tem que ser profunda e completa. E Diva mostra aqui como é que se faz!
Direção: Jasmelino de Paiva
Elenco: Diva Gonçalves, Juliana Sena, Nilton Resende
Assista ao trailer!



