Algumas vezes, ao contemplar um filme, uma pergunta pode pairar no: por que patavinas essa pessoa quis contar essa história? Dolores convoca esse questionamento, por toda a sua confusão narrativa.
Neste sentido, o maior incômodo durante a projeção é a ausência de espaço para o desenvolvimento da protagonista Dolores (Carla Ribas). No aparente desejo de complexificar a trama, o roteiro, Maria Clara Escobar (Desterro) e Marcelo Gomes (Paloma) — também diretores do longa-metragem — se perdem.
Além de Dolores, o público acompanha a filha e a neta dela. Os enredos são apresentados de maneira intercalada. A jornada da heroína, Dolores, é interrompida para trazer dados das coadjuvantes, que não enriquecem tanto assim a premissa.
A figura dramática central quer ser rica e acredita que tudo na sua vida vai mudar, após o seu aniversário de 66 anos. É isso que é a obra. Mas, o plot não consegue caminhar, porque, ao invés de investigar bem essa papel principal, Escobar e Gomes decidem colocar tanta coisa extra, que não contam o mínimo de gênesis de personagem.
Qual a motivação de Dolores? Quem é essa mulher com esse vício que a domina tanto? Quais emoções perpassam a sua mente e alma quando se trata da sua filha? E da sua neta? Obviamente, essas questões poderiam ser outras também. O único pedido da plateia é que exista a chance de conhecer a figura de destaque de uma obra.
Porque através dela é que quem assiste se conecta com um dado produto audiovisual. Dentro desta lógica dramatúrgica, o problema não é inserir um romance de uma personagem bem coadjuvante, é essa escolha desviar o caminho da construção de dramaturgia de Dolores e nem ao menos ser feito de um jeito costurado com os outros fatos dramáticos.
Todavia, ainda que a base seja fraca, o elenco segura a produção nas costas. Ribas contém dentro do seu próprio jeito de atuar uma suavidade que soa como perigosa. A intérprete é daquelas que consegue dizer textos absurdos, intensos e/ou fortes com uma modulação delicada da voz.
Aqui essa característica é um ganho por conta da ambição não raciocinada de Dolores. A atriz emite uma certeza quase delirante ao proferir as suas falas. Combinado a essa estratégia de Ribas, existe a estilística de Naruna Costa (Duda).
Ela é quem equilibra a placidade presente no tom de Dolores. Todavia, Naruna e Carla não são monocórdicas. O que a dupla faz é criar energias opostas entre mãe e filha, que geram embates com movimentações e tonalidades vocais distintas. Esse caminho torna as sequências mais interessantes de acompanhar, porque, entre retenção e explosão, surpresas são criadas.
Assim, o marasmo e a volta em círculos do roteiro são um pouco dissolvidos por conta desse jogo cênico de Naruna e Carla. Além disso, a presença de Gilda Nomacce (Enterre seus mortos) e a participação de Zezé Motta (Xica da Silva) também dinamizam os arcos dramáticos truncados das personagens.
A partir de todo esse contexto, também vale ressaltar a qualidade técnica da caracterização. Tanto em termos de temperatura como de textura, figurino e maquiagem transmitem elementos das personagens que muitas vezes parecem faltar ao roteiro.
Em uma dada sequência, por exemplo, vemos Dolores com um sutiã meigo e simples. Como ela costura lingeries, esse é um dado importante para a sua personalidade, porque dentro do que ela faz, ela escolheu aquela peça, que é delicada, mas com muitos detalhes.
Em alguns instantes, como na abertura do longa, a iluminação ajuda na construção desta sensação do que Dolores vive. Todavia, a luz incomoda em diversos momentos. Para além desta estética “gelatinesca”, com cores vermelhas e verdes intensas, na maioria das sequências a luz está chapada.
Sem camadas até nas imagens, Dolores tem uma boa intenção em contar a história de uma mulher mais velha, que resiste e continua a sonhar. Contudo, sem profundidade narrativa e com uma técnica mediana, a sessão é um tanto angustiante, por não conseguir conectar o espectador com a obra.
Direção: Maria Clara Escobar e Marcelo Gomes
Elenco: Carla Ribas, Naruna Costa, Gilda Nomacce



