Sonhos de trem (Netflix)

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Um dos maiores desafios da contemporaneidade é encontrar um material tão refinado quanto Sonhos de trem, principalmente quando falamos de Estados Unidos e Netflix em uma mesma frase. Com uma história pouco previsível, que toma tempo para desenvolver seu protagonista, Robert Grainier (Joel Edgerton), o longa-metragem de Clint Bentley (Jockey) é praticamente irretocável. Há um cuidado com a progressão dramática e com os sutis avanços temporais, que tornam a sessão instigante e tocante.

Cada personagem apresentada durante a sessão ganha algum nível de profundidade e a relação delas é explorada em múltiplas camadas em relação à Robert. A jornada de Grainier é premiada com um desenho de som sensível, que insere ruídos no silêncio da floresta e da casa que este homem passa tanto tempo esperando. O verde forte que transborda a tela, reflete a sua esperança em reencontrar seus amores perdidos e a clausura de seu ofício. Uma esperança sustentada em grande parte da projeção, mas não como um jogo cruel para enganar a plateia, porém como um mergulho imersivo na perspectiva de sua figura central. Há neste trabalho uma mescla complexa de significados plurais em uma mesma sequência.

Os longos quadros abertos em contraponto com os um pouco mais fechados e ligeiros, também ditam o tom da obra. Quando ele não está com um amigo querido ou (mais ainda) sua família, as temperaturas caem. Gladys (Felicity Jones), sua esposa, está sempre colorida, cheia de vida. A luz que invade sua quieta personalidade vem dela e sua filha pequena. Mas, ao mesmo tempo, o tom quente é do que destrói toda a sua felicidade. É curioso observar como o momento do incêndio é o que ganha mais tonalidades cálidas, mesmo que a frieza somente perpasse (tirando este momento) as tristezas de Robert.

Novamente, tons , texturas e frames que ganhando sentidos vários e, por isso, provocam sensações plurais. Neste sentido, a fotografia de Adolpho Veloso (Rodantes) também brilha ao lado da direção geral de Bentley em termos de angulação e posicionamento do elenco no ecrã. Os plongées e contras-plongées e a lateralização dos rostos na tela revelam o que oprime, alivia e engradece o protagonista. Robert coloca sua família de lado para poder apoiá-la. É uma dicotomia enlouquecedora para esta figura central tão pacífica e resiliente. A vida dele é vista como pequena por seus empregadores, que sequer aparecem pessoalmente em sua jornada, porém que marcam seu destino.

A maneira como Grainier se engrandece ao lado da mulher e em sua propriedade escancara o que é importante para ele e o que é inevitável e sufocante em sua trajetória, também elevam a qualidade da trama. Desta forma, Sonhos de trem é uma produção que consegue ser cinema em sua completude, porque transmite em imagens fatos políticos profundos e tempos históricos que geram consequências graves para o presente da sociedade, através de imagens repletas de apuro estético e conhecimento de técnica cinematográfica. O longa é completamente sutil em seus diálogos e até no que escolhe para expor visualmente.

Quando deseja revelar algo, existem diálogos e contemplações que fazem com que a informação chegue como um rio, que traz o debate com fluidez. Ainda assim, não há uma romantização das vivências de Robert. Pelo contrário, existe uma crueza da realidade dos operários, que foram mãos-de-obra básica para o crescimento econômico dos Estados Unidos por um bom tempo, mas que eliminaram árvores e deixaram um pedaço de si naquelas terras que passaram tanto tempo trabalhando, colocadas em cena. É uma dureza com poesia, que toca os corações, mas com as farpas da verdade dos fatos sobre a natureza humana.

O jeito de contar tanto em uma única história, que é completamente focada em “apenas” um homem ficcional – baseado no livro homônimo de Denis Johnson -, mas que abarca toda uma época, um imaginário sobre lenhadores e o sofrimento dos oprimidos é que faz a diferença aqui. Há um toque até mesmo de genialidade neste filme, que não usa a morte de personagens importantes como um mero artifício, mas como um amadurecimento para Robert e uma oportunidade de debater não apenas as injustiças sociais, como também da própria vida. Para fazer tudo isso, a equipe se apresenta coesa, com um elenco sensível e conectado à atmosfera da narrativa.

Neste encaixe ideal, o único problema em termos de trama é o momento entre o desaparecimento de Gladys e sua filha e o restabelecimento do cotidiano de Robert. Em alguns momentos, parece que o roteiro não era certo sobre o destino da personagem central do enredo. Há uma titubeada que soa como uma estratégia para confundir o público. Será que elas foram embora ou algo aconteceu com elas? A dúvida não é ruim, é a catalisadora de boa parte da projeção, porém o tempo que ela dura é estranho e um tanto apelativo. Ainda assim, e

Direção: Clint Bentley

Elenco: Joel Edgerton, Clifton Collins Jr., Felicity Jones

Assista ao trailer!

 

Sonhos de trem (Netflix)
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