Dirigido por Karim Aïnouz (O Céu de Suely), A Vida Invisível foi o longa escolhido para representar o Brasil no Oscar 2020. A obra é baseada no romance de Martha Batalha: “A Vida Invisível de Euridice Gusmão”. Estrelado por Carol Duarte (Segunda Chamada) e Julia Stockler (Rótulo) e com a participação de Fernanda Montenegro (Central do Brasil) no elenco, a projeção venceu a Mostra Olhar, no Festival de Cannes.

No geral, o que salta aos olhos durante a exibição é a sua história potente e intensa, bem como os rumos possíveis das vidas femininas, a partir das interferências masculinas, do poder do patriarcado e da invasão que os homens acabam performando pelo direito  que eles acreditam ter. O resultado entregue é algo elaborado em sua técnica, principalmente em questões como direção de arte e música. No entanto, alguns incômodos podem ser apontados.

Pensando nisso, o Coisa de Cinéfilo traz agora uma reunião de elementos que falam sobre os pontos altos e baixos do filme. Confira!

PONTOS FORTES

Premissa e trama: O filme conta a história de duas irmãs, Guida (Stockler) e Euridice (Duarte), que são separadas pela vida e sonham em se encontrar novamente. A forma como o plot é trazido e colocado, no geral e inicialmente, demonstra as possíveis imagens e caminhos que uma mulher poderia passar e percorrer, em meados do século XX, no Brasil. As tensões e posicionamentos geravam resultados intensos e, muitas vezes desesperadores. A imagem que ele passa é que não havia muito como fugir de certas imposições do patriarcado que buscava – e busca ainda – empurrar forçadamente a sua validação e forma de ver e controlar o mundo. Este discurso é claro e evidente dentro da narrativa. Seja pela presença abusiva e controladora de Manoel (Atónio Fonseca), pai das meninas, pelo marido da protagonista que traz aquele rapaz conservador e perverso, que performa a figura do cara de bem, além de outras personagens menos centrais que demonstram como enxergam o poder masculino na sociedade. Em certo aspecto isto é positivo, o “porém” destas escolhas está na próxima sessão…

A Vida Invisível

Direção de Arte, Figurino e Fotografia: Estes três elementos poderiam render textos por si, mas reunindo-os é possível destacar como eles conversam e fazem parte da história. As cores selecionadas para a Arte estão praticamente sempre contraponto com as das vestimentas. Entre o bege e marrom, o vermelho e azul se destacam em pontos específicos da cena, seja numa cortina, numa camiseta, na tinta da parede. Uma possível interpretação seria a disputa entre a melancolia e dor das imposições da vida para as mulheres com o calor das suas lutas e conquistas. Talvez. Já nos enquadramentos, o olhar parece focar na tensão entre sufocamento e liberdade. Na cena, por exemplo, em que Euridice e Guida dançam, há uma câmera parada, em um plano médio e a temperatura mais próxima de cores frias. A impressão que fica da sequência é dessa dualidade que a dupla vive, entre o livre e a clausura. Por isso, estas questões foram aqui elencadas como destaque positivo.

PONTOS FRACOS

A Vida Invisível

Premissa e história: Assim como pode ser considerado como algo bem realizado, existem questões que enfraquecem a obra em sua narrativa. A condução da trama de Euridice e Guida vai caindo enquanto a projeção avança e a seleção de acontecimentos torna-se repetitiva e o espectador pode sentir falta de elementos de força do enredo. Além disso, em alguns momentos, paira a dúvida se as personagens não estão se encaminhando para uma planificação. Elas parecem não avançar, principalmente os coadjuvantes. Ana, a mãe das jovens, por exemplo, não esboça força perante a repressão do marido, seja no seu texto ou em sua atuação, deixando-a como uma pessoa passiva, quase uma observadora do sofrimento das filhas. Ainda que ela respeitasse a decisão de Manoel, poderia demonstrar qualquer tipo de sentimento dual ou menos simplificado. Este fator é visto em outras personas também, que quase se transformam meramente em tipos. Contudo, de alguma forma, isto não compromete a totalidade do longa.

A Vida Invisível

Elasticidade temporal e artificialidade: Ao assistir ao filme, notam-se momentos de “buraco” nas cenas. Inicialmente, a questão parece estar voltada para a atuação, como se os intérpretes deixassem barriga que criam artificialidade no tom das sequências. No entanto, escolhas de direção e montagem poderiam sanar este efeito, com uma maior quantidade de cortes ou enquadramentos que não revelassem os corpos um tanto soltos. Este fator não é algo contínuo, são em alguns momentos, que parecem faltar verdade no que está sendo encenado ali. Um exemplo é a cena do detetive (Flavio Buraqui) com Euridice e existe um desconforto ali, podendo deixar uma sensação de que a equipe possuía uma falta de crença no que estava sendo posto.

Confira o trailer!

Pin It on Pinterest