Talvez a parte mais difícil na hora de fazer um filme de romance sejam as construções das relações. Não apenas do casal central ou dos múltiplos pares que uma narrativa pode ter, mas de todos os afetos que cercam as personagens. Alice Wu (Livrando a Cara) é mestra nisto. Apesar de recorrer a algumas estratégias bregas – como as narrações confessionais -, é na criação das dinâmicas pareadas que Wu consegue fazer sua obra crescer em Você Nem Imagina.

A começar pela dinâmica da protagonista, Ellie Chou (Leah Lewis) com o seu pai (Collin Chou). É impressionante os detalhes criados para o estabelecimento da criação da amizade e carinho entre eles. Sejam nos planos que revelam cumplicidades de olhares, nas paletas e estampas do figurino ou nos silêncios que dispensam diálogos entre eles, existe uma profundidade posta desde o início e que vai sendo cuidadosamente revelada aos espectadores.

Em seguida, tem-se Ellie e seu novo amigo, Paul Musky (Daniel Diemer). Aqui, o fato curioso é como, em únicas cenas, Wu consegue trabalhar múltiplos sentidos em uma interação. Paira a dúvida em alguns momentos se está sendo exibido o nascimento de uma amizade ou de um interesse romântico, ainda que seja unilateral. De qualquer forma, o que texto e direção mostram é que, independentemente do tipo de laço que esteja sendo formado, a ligação entre os dois é forte. A proximidade física também vai se estreitando, como nas sequências em que Paul corre ao lado de Ellie, o que reforça esta compatibilidade crescente. As temperaturas presentes em um passam a “contaminar” o outro, a dupla vai se entendendo e se afeiçoado aos poucos, nas cenas de Você Nem Imagina.

Por fim, Alice Wu também constrói a conexão de Ellie e Paul com Aster Flores, a crush dos dois e o que liga um ao outro inicialmente. Há uma delicadeza mesclada com solidez na maneira como o contato entre as duas meninas acontece. Enquanto há uma firmeza na forma como Aster olha, fala e lida com Ellie, que é quebrada por uma ação final da história; Ellie tem reações progressivas e vai criando espaço para conseguir se expressar da forma que deseja. Já com Paul, a movimentação de Flores parece mais carnal, mas sem deixar de imprimir a confusão da personagem em enxergar duas pessoas diferentes pessoalmente e por mensagem de texto.

Você Nem Imagina

Toda a situação narrativa é posta em Você Nem Imagina. O público conhece quem está na vida de Ellie, o que é importante para ela, seus medos e vontades. O seu desenvolvimento é claramente visto e bem executado. No entanto, este ponto, que à princípio é positivo, passa a ser um incômodo do meio para o final do longa, principalmente no que se refere ao tempo gasto com Paul. Em um dado momento, as reiterações da personalidade de cada um ficam cansativas e o enredo não parece avançar.

Obviamente, essa truncada no meio da projeção atrasa certos acontecimentos. Por isso, quando chega a hora de se direcionar para o desfecho tudo soa um tanto corrido. Situações relevantes para o arremate do plot e dos mini plots são jogadas e desperdiçadas, sem muito cuidado. Inclusive, Wu cria um conflito pesado entre Paul e Ellie, com uma frase extremamente triste dita em uma discussão e é esquecida alguns quadros depois.

Desta maneira, no geral, Você Nem Imagina entrega um resultado quase equilibrado. Entre seus altos e baixos, o mais marcante são as possíveis identificações que se tem ao assistir ao filme, marca registrada da diretora e roteirista Alice Wu, desde seu trabalho anterior, Livrando a Cara – que vale a pena de ser visto também. Mas, o que há lá e falta neste de cá é um final amarrado, ainda que este seja de reticências. Mas, sabe aquela parte mais complicada de fazer um bom material dentro deste gênero? Isto ela consegue!

Direção: Alice Wu
Elenco: Leah Lewis, Alexxis Lemire, Daniel Diemer, Enrique Murciano, Becky Ann Baker, Catherine Curtin, Collin Chou

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