Moxie: Quando as Garotas Vão à Luta

Crítica: Moxie: Quando as Garotas Vão à Luta (Netflix)

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Baseado no romance homônimo de Jennifer Mathieu, Moxie: Quando as Garotas Vão à Luta chega à Netflix com um tom desequilibrado. Mesclando assuntos sérios e profundos, vivenciados pelas mulheres da nossa sociedade, falta um cuidado maior na hora de tratar sobre estas temáticas. Com situações que vão de assédio moral e verbal até denúncia de estupro, há uma busca por imprimir uma estética de comédia romântica adolescente que fica desconecta à medida em que o peso vai crescendo na trama. Em um dado momento, isto acaba criando um desconforto em quem assiste.

Esta constatação é um tanto triste, porque o longa começa bem. Aparentando uma construção de progressão da narrativa, o público vai, aos poucos, conhecendo a realidade da protagonista, Vivian (Hadley Robinson, Adoráveis Mulheres). O conflito central é apresentado e a suspensão se eleva até a metade da projeção. No entanto, é a partir daí que ele passa a se perder. Primeiramente, a inclusão de um interesse romântico para Vivian é exagerada. Principalmente por Seth (Nico Hiraga, Fora de Série) é desesperadamente sem defeitos.

Há uma sensação de que, todo tempo, a história deseja reforçar a conhecida frase “nem todo homem”. Ainda que existam fatores que contribuam para a aproximação de Seth com a realidade de Vivian – por ele não ser um homem branco –, a personagem é tão ausente de falhas que a sua construção se torna plana. Em uma medida menor, mas ainda presente, todas as amigas de Vivan vão apresentando cada vez menos personalidade, enquanto o enredo se desenvolve. As atitudes de suas colegas passam, cada vez mais, a ser repetitivas e elas apenas chegam para dizer frases de efeitos, constantemente.

Talvez esta seja a grande questão de Moxie: Quando as Garotas Vão à Luta. A partir de tópicos importantes para o mundo, a produção quer causar impacto a todo instante, seja por um sob som com uma música de rock ou grandes gestos performados pelas adolescentes. As ações das jovens vão se esvaziando e o desfecho da obra é a derrapada derradeira. A partir do terceiro ato, as situações chegam ao seu limite. Em uma adaptação mal elaborada, a seleção do início das resoluções dos conflitos é tardia e a luta das estudantes soa banal.

Moxie: Quando as Garotas Vão à Luta

Neste contexto corrido, o protesto organizado após uma denúncia de estupro  tem um rebeldia juvenil, há uma canção animada e pulos pelo pátio do colégio. Ainda que este seja um filme para espectadores teen, a gravidade da situação demandaria outro olhar, outra atmosfera. Esta confusão de direcionamentos é também percebida pela ingenuidade da produção, com sequências expositivas, que deixam uma sensação de que um manual está sendo seguido. Diversas reiterações acabam por ocorrer, como nas reuniões da Moxie ou nas aulas do professor Davies.  No entanto, é possível notar o esforço na direção de Amy Pohler (Divertida Mente).

A artista consegue trazer para telas os traços característicos deste tipo de comédia.  Em várias passagens, através das movimentações de câmera escolhidas, há uma aproximação com o universo ficcional ali construído. Entre os travellings e as panorâmicas, Poehler aumenta as tensões. dentro da lógica de aventura de Vivian em sua jornada de autodescoberta, fazendo com que o público enxergue mais nitidamente a perspectiva da protagonista.

A direção de arte de Erin Magill (Swallow) é outro elemento destacável aqui, por promover uma ambientação de cena não somente adequada para a proposta, mas que acrescenta sentido interpretativo.  Com um ar jovial e com objetos cênicos coloridos, há um diálogo com a iluminação, que convoca temperaturas, majoritariamente, amareladas e avermelhadas, cores da escola de Vivian. A ideia passada é de um sufocamento, provocado pelos acontecimentos do colégio, como se aquele local e aquelas pessoas acuassem Vivian, até ela chegar em seu limite e até ultrapassá-lo.

Moxie: Quando as Garotas Vão à Luta tem certo potencial, porém este é desperdiçado pela falta de zelo com questões graves e pela perda da condução rítmica. É preciso saber equilibrar as velocidades e intensidades em uma obra artística, caso contrário, resta um cansaço ao seu final.

Direção: Amy Poehler

Elenco: Hadley Robinson, Amy Poehler, Lauren Tsai, Nico Hiraga, Patrick Schwarzenegger, Sydney Park, Anjelika Washington, Josie Totah

Assista ao trailer!

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