Não há como falar de Meu Nome é Dolemite sem antes lembrar da história do cinema norte-americano. Entre 1930 e 1968, o Código Hays de censura trouxe uma regra de códigos morais para as produções cinematográficas. Posteriormente, com sua flexibilização e caducidade, explodiu nas décadas de 60 e 70 o gênero de exploitation. Marcado pela violência, palavrão, sexo e nudez, ele se dividiu em diversas categorias. Entre elas, o blaxploitation era, resumidamente, um filme feito por negros para negros. Como características significantes, ele tinha uma trilha sonora de funk ou soul jazz, um vocabulário forte, melodramas e a ambientação dos ghettos.

Assim, é neste contexto que está o novo filme da Netflix, uma cinebiografia de um nomes famosos do blaxploitation. Rudy Ray Moore (Eddie Murphy, Um Funeral em Família) é um pseudo comediante que abre shows em bares de Los Angeles, mas ninguém da plateia ri de suas apresentações. Após escutar histórias hilárias de um mendigo, Rudy decide criar o alter ego de Dolemite, incorporando seus contos em forma de rima. Graças ao sucesso imediato que faz, chegando a estar entre os discos mais vendidos da Billboard, ele que quer mais: fazer um filme.

Dirigido por Craig Brewer (remake de Footlose), Meu Nome é Dolemite é, primeiramente, um metacinema. Com um ritmo ágil, a segunda metade do longa passa por todas as etapas da realização de um filme. Vai desde o pitching (venda da ideia para o produtor bancar o projeto), passando pelo brainstorm do roteiro e até dificuldades técnicas como falta de filme na câmera. Além de cada cena ser uma bela homenagem não só à Rudy como todo o blaxploitation, os bastidores funcionam por si só. O leve roteiro e o comprometimento dos atores realmente passam a imagem daquele ambiente como uma família.

Neste sentido, Meu Nome é Dolemite é também um projeto de amor de Eddie Murphy, já que ele também é seu produtor. Indo além, mais do que um testamento para Rudy, este filme é a oportunidade perfeita para, assim como Dolemite, que uma nova geração lembre do ator de Um Tira da Pesada, que aos poucos caia no esquecimento. Com uma das atuações mais fortes de sua carreira, Murphy se atesta mais uma vez como um dos grandes nomes de sua geração.

Evidentemente, o astro é mais conhecido por seu timing cômico, mas seu papel como Dolemite não se limita a isso. Sempre vestido com figurinos coloridos e excêntricos — categoria que merece ser reconhecida em premiações —, Murphy incorpora o lado caricatural do personagem. Ele solta um fucking a cada duas frases e conta suas piadas sempre se movimentando com molejo e uma bengala. Ainda que mostre autoconfiança na maior parte do tempo, há também nuances dramáticas e de fragilidade em sua atuação, como na cena em que recebe uma notícia desanimadora e a câmera de Brewer vai apenas aproximando dele na cabine telefônica, trazendo uma sensação de enclausuramento.

Meu Nome é Dolemite

Igualmente, o carisma de Dolemite É Meu Nome também passa por todo seu elenco de apoio. Ele vai desde participações especiais de Snoop Dogg (Reincarneted) e Chris Rock (A Very Murray Christmas) como radialistas até um brilhante Wesley Snipes (franquia Blade). Este é outro que se destaca, fazendo o ator D’Urville Martin, que se acha profissional demais para trabalhar com o resto da equipe, como o cinegrafista Nick (Kodi Smit-McPheeX-Men: Fênix Negra).

Assim como Eddie Murphy, Snipes é outro caberia em premiações, se entregando aos poucos no ridículo, à medida que vai percebendo que não dá para levar aquele filme a sério. Já Tituss Burgess (Titus de Unbreakable Kimmy Schimidt), basicamente, interpreta outra versão de seu papel mais famoso, o que é sempre positivo. Ainda sobre tecnicidades, o colorido figurino que transborda alegria, a trilha sonora do funk norte-americano e uma ambientação de época com cheia de tons amarelos trazem a total imersão para a década de 70.

Por fim, Meu Nome é Dolemite é uma carta de amor para Rudy Ray Moore, Eddie Murphy e Wesley Snipes. Em um passeio nostálgico pelo gênero de blaxploitation, a trama lembra o recente Artista do Desastre ao retratar pessoas apaixonadas produzindo um filme B. No entanto, diferentemente de Tommy Wiseau, há um swag inegável nesta metaficção. Se Dolemite começou a fazer filmes para cobrir seu ego pessoal, ao final, ele ganha consciência de que é uma inspiração para diversos jovens negros que buscam eternizar seu nome em capas de discos assim como ele.

Direção: Craig Brewer

Elenco: Eddie Murphy, Wesley Snipes, Keegan-Michael Key, Kodi Smit-McPhee, Craig Robinson, Chris Rock, Mike Epps, T.I., Tituss Burgess, Snoop Dogg, Da’Vine Joy Randolph

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