Crítica Marty Supreme

4.5

Caótico e irritante, o protagonista Marty Mauser cai como uma luva para o ator que o performa: Timothée Chalamet (Me chame pelo seu nome). Em quase 2h30 de sessão, o público mergulha nos devaneios de um homem cheio de talentos e trambiques. Marty Supreme é uma cinebiografia sobre jogador de tênis de mesa, Marty Reisman, de John Safdie (Joias brutas). Apesar da direção e texto de Safdie serem cuidadosos e bem realizados, o ponto alto da obra é, definitivamente, Chalamet. É revoltante de admitir, porque a postura de Timothée não simpática, mas o rapaz é talentoso. A grande questão do intérprete é que ele sabe ir além das representações e consegue colocar muito de si, sem, ao mesmo tempo, esquecer de que existe uma figura dramática ali.

Timothée domina suas expressões faciais e corporais, a fim de imprimir as emoções de seus papéis na tela. Ele sabe pausar, gaguejar, pular no chão e fazer gestos grandes sem ser histriônico. E isso parece vir de uma consciência sobre espaço de cena. O seu histórico no teatro deve contribuir bastante para esse entendimento. Timothée emprega a fisicalidade para as suas personagens, algo que daria orgulho para Stanislavski. Isto porque Chalamet não somente se lança ao solo, corre, dança, chora e mexe nos músculos da face com tranquilidade, porém ele faz isso com intenção e certeza.

Os gestos são limpos e precisos, são controlados e organizados, com uma partitura nítida e um objetivo a ser alcançado. E em um caso como no de Marty Supreme, no qual ele dá vida à uma pessoa tão cheia de camadas, é fundamental, e essa é a melhor entrega de “Salaminho” (apelido carinhoso ao ator, desta que vos escreve), até então. Mas, há também um mérito de Safdie, que é o de criar uma encenação que convoca performances mais orgânicas do elenco. Um exemplo forte é a participação de Gwyneth Paltrow (Shakespeare Apaixonado) no longa-metragem. Em um de suas melhores entregas no cinema, Paltrow traz pluralidade de intenções em sua Kay Stone.

Ao mesmo tempo que a artista revela sentimentos diversos em sua face, ela o faz com tamanha suavidade, que a cena fica mais tocante e até emocionante. O tom blasé “paltrowniano” é utilizado a favor da cena, o que aumenta a suspensão da ações que ocorrem no longa. Porque a produção é repleta de peripécias e a fé cênica do elenco ajuda na crença imediata dos espectadores. Um exemplo é a sequência que Kay e Mauser se beijam no escuro, enquanto um policial com lanterna grita por eles. Todo aquele momento poderia soar falso e improvável, mas o mergulho dos intérpretes naquele universo ficcional conecta a plateia com os absurdos da narrativa.

Neste sentido, o roteiro de de Safdie e Ronald Bronstein (Bom Comportamento) ajuda a fomentar essa construção complexa de Marty e todas as loucuras desta trama. Há uma liga entre um fato e outro da vida do protagonista, que fazem sentido, mesmo que sejam insanos para indivíduos honestos e/ou comuns. De um assalto à uma loja de sapatos, para um mundial de tênis de mesa, para o roubo de um cachorro, para uma competição no Japão e todas as insanidades que preenchem a vida de Mauser, as situações são colocadas no ecrã de maneira coesa. E essa trama passa por seus enlaces e desenlaces, com clímax e transformação do herói.

Ainda que existam situações extra-cotidianas, elas se ligam e estão todas em função da jornada de Mauser. Por isso que é tão importante que as atuações sejam realistas, porque elevam o potencial do insano trazido para a sessão. O filme parece um espetáculo absurdista, no qual o trágico e o cômico se encontram para jorrar nos olhos de quem assiste o quão o mundo é cruel, como as lutas de classe podem moldar e interferir nos comportamentos humanos, mas como somos unidos, furiosos e interconectados no caos e na luta pela sobrevivência. Marty Supreme consagra essa lógica quase beckettiana, com emoções de perdas e gestos repentinos, que vêm de um colapso da sociedade.

A direção de John Safdie é a cereja do bolo, neste mundo de Marty. O cineasta abre espaço para as marcações de cena e emprega os movimentos e efeitos de câmera com justeza. Safdie é clássico: close-ups para os instantes íntimos, planos médios e gerais para quando Mauser está em fuga ou jogos. O mesmo se pode dizer para as escolhas de travelling, pans, chicotes etc. que surgem para as escapadas de Marty Mauser, suas perdas e ganhos na mesa de tênis e suas aventuras amorosas. É nessa tranquilidade do uso da tecnicidade do audiovisual que Safdie compõe imagens que fazem com que o consumidor mergulhe na sua narrativa.

Desta maneira, Marty Supreme é técnico e emotivo, e, sobretudo, um título que traz integrantes que compreendem sobre a trajetória da arte de contar histórias. São profissionais que parecem dominar os artifícios corretos para provocar as sensações que desejam em sua plateia. Assim, essa é uma exibição extensa, mas que merece ser deliciada em toda a sua qualidade técnica, em seu discurso político polido e diluído nas loucuras de seu protagonista e em seu conhecimento sobre emoções humanas. Filmaço, que deixa um gosto muito semelhante ao de quando se assiste a uma boa peça teatral. Algo raro dentro da contemporaneidade!

Direção: John Safdie

Elenco: Timothée Chalamet, Gwyneth Paltrow, Odessa A’zion

 

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Crítica Marty Supreme
4.5