Crítica: Infiltrado na Klan

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Catapultado em Hollywood com Faça a Coisa Certa, Spike Lee foi um dos mais fortes nomes do cinema americano entre o final dos anos de 1980 e início dos anos de 1990, propondo um cinema politicamente implicado com causas que tocavam nas principais questões da comunidade negra estadunidense. Seguiram ao filme de 1989 outros títulos igualmente potentes como Febre da Selva Malcolm X, mas, de certa maneira, do final dos anos de 1990 para cá, o cinema de Spike Lee parecia menos inspirado e reverberante. Foi preciso um momento político efervescente como esse que atualmente os EUA vive, a era Trump, para Lee voltar a fazer um longa com “sangue nas veias”, provocador e cheio de coisa a dizer sobre a sociedade americana. O filme em questão é Infiltrado na Klan.

No longa, uma dupla de policiais interpretada por John David Washington e Adam Driver se infiltra na Ku Klux Klan e no panteras negras a fim de neutralizar ações potencialmente violentas do primeiro grupo. Cada vez que os dois se envolvem nas atividades de suas lideranças, sobretudo da Ku Klux Klan, o perigo aumenta, mas também revelações sobre o “cabeça” David Duke tornam-se ainda mais valiosas para as investigações policiais.

Extremamente irônico na maneira como trata o grupo supremacista branco, Infiltrado na Klan é um filme que se apropria do humor como ferramenta para tratar de temas sérios, feridas sociais que perduram até hoje na sociedade americana: o preconceito legitimado por teorias e discursos sem o menor fundamento científico, histórico. Nesse sentido, mais do que proporcionar o riso como efeito, o humor de Infiltrado na Klan representa o olhar crítico mordaz de Lee para o racismo e a maneira como ele é fomentado na ignorância, pela comodidade ideológica de se manter os olhos fechados para certas questões. O filme de Spike Lee é ainda mais interessante quando o diretor estabelece uma ponte com a América contemporânea no seu impactante desfecho, evidenciando o retrato de um país sempre invertido e cuja história é marcada pelo sangue de uma parte da sociedade ainda marginalizada.

Com um elenco afiado encabeçado pelo jovem John David Washington, cria de Denzel Washington, Infiltrado na Klan é o retorno de Spike Lee à sua melhor forma, evidenciando que a falta de consciência sobre os efeitos do preconceito a longo prazo acaba sendo inspirador para a arte. Infelizmente, as expressões artísticas passam por esse ciclo, talvez para reforçar sua urgência como instância crítica, registro social e experiência libertadora da cada vez mais complicada vivência humana.

Assista ao trailer:

 

Wanderley Teixeira468 Posts

Pesquisador, jornalista e crítico de cinema, fã do Paul Thomas Anderson e também da Nicole Kidman, leitor esporádico de HQs de super-heróis e consumidor voraz de qualquer tipo de besteira colecionável.

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