Em sua primeira direção de longa-metragem, Lars Vega (Looking for joy) em convocar uma linguagem cinematográfica tradicional e foca na investigação das relações humanas como fator de complexidade para a sua obra. É nessa estratégia que ele é sólido e eficiente.
Lars fala sobre uma sociedade convencional e sentimentos humanos comuns, através da contraposição do cotidiano com o extracotidiano. Ao inserir a figura do alienígena Roland (Kiran Shah), a produção comprova que aquele vilarejo não é contra o diferente e possui uma amabilidade muito maior do que eles mesmos imaginam.
Em todo seu singelo exercício audiovisual, Lars traz referências visuais para fomentar este discurso. Com inspirações em E.T. (1982) e Star Wars (1977), a obra aproxima o público de uma história sobre uma vila na Suécia, que tem uma cultura não será conhecida por muitos.
Para além da metáfora, nas referências são criados laços de familiaridade com quem assiste. Lars também ambienta o espectador no cotidiano de dois irmãos, Arne Nymam (Rolf Lassgård) e Stefan (Lennart Jähkel), mostrando o íntimo do dia a dia dos dois.
Essa estratégia é mais um ponto de conexão emocional da plateia com a narrativa. Para realizar tal intento, Lars mostra as tarefas da dupla, em quadros mais abertos. Os momentos de relaxamento dos dois têm planos médios e closes.
Desta maneira, nota – se como os quadros vão fechando quando emoções mais profundas são mostradas, criando olhares plurais para esses dois, mas mexendo com os sentimentos do público também.
Assim, a direção educa seu público, mostrando como ele deve se sentir durante a projeção. Esse elemento de aproximação se dá também pelo o uso de apelidos para as personagens da pequena vila.
Entre arquétipos das figuras dramáticas e o jogo de temperaturas claras e escuras, quando a plateia se ambienta, o extraterrestre Roland é introduzido na trama. A figura nao é apenas um ponto de tensão entre Arne e Stefan, mas também o único elemento “estranho” dentro da narrativa.
Todavia, o pequeno Roland se integra ao ambiente. O que mais preocupa as personagens centrais é a doença de Arne. Ao inseriri um alienígena nesse contexto, Lars provoca uma reflexão curiosa, na qual ele fundamenta seu argumento de que as relações humanas são o que verdadeiramente importam.
Além disso, através das suas escolhas de encenação, principalmente planificações, ele gera essa empatia e imersão que criam um laço irrompível com quem assiste, até o final da exibição. Assim, Vega não inventa a roda, mas ele usa bem essa traquitana que é o cinema.
É bem verdade que ele faz planos de novato, mas nada que comprometa a totalidade de seu longa. Um exemplo é quando o cineasta faz quadros de observação como se alguém visse de fora. Contudo, essa escolha não está imbricada com a trama.
Essa ideia de imagem distanciada soa como um comentário distante. Por que filmar Arne e Stefan pela janela se ninguém estava os vendo? Momentos assim quebram levemente a sofisticação da produção.
Ainda assim, Arne goes to space é um filme que acerta ao falar sobre um contexto que o diretor conhece, com as ferramentas que a equipe domina, mesmo que não seja um espetáculo ou passe longe de ser disruptivo. Lars prova isso, na realidade, a arte de contar historias é muito mais relacional do que inventiva!
Direção: Lars Vega
Elenco: Rolf Lassgård, Lennart Jähkel, Kiran Shah



