Quando um filme possui um grande potencial, mas desperdiça, é mais triste do que as produções que são apenas ruins. Ancestors procura ser disruptivo, sensível e profundo, porem é reiterativo e a criatividade se esvai em um terço da sessão.
A estreia do britânico David Turpin na direção de longas-metragens trata sobre um dos acontecimentos mais tristes da humanidade, que foi a epidemia da Aids nos anos 1980. A doença por um longo tempo era uma sentença de morte e esse desespero melancólico está estampado na tela.
Esse é um dos grandes méritos do filme de Turpin, a instalação da atmosfera. Através da temperatura da luz e dos enquadramentos, há uma utilização do cinza dentro da realidade da narrativa, juntamente com uma multiplicidade de ângulos das dores das personagens.
A busca por mostrar diversas perspectivas do mesmo momento e de situações semelhantes funciona por um tempo. Ela funciona como um elemento de fortalecimento do argumento da equipe do longa, mas essa estratégia se esgota em meia hora de projeção.
A partir dali, a sessão se torna cansativa porque as figuras dramáticas não são exatamente desenvolvidas para além da tristeza da contaminação e da morte.
De fato, a doença foi uma tragédia, porém existem outras obras que conseguem balancear a questão do vírus com a investigação de personagens.
No Brasil, o tema é tratado de forma tão plural, multifaceta e profunda, que fica dificil baixar os parâmetros para tentar apreciar Ancerstors.
Porque, para além de gastar tempo com repetição que não fomenta o imaginário da dor, Turpin ainda inseriu outra coadjuvante que fica perdida na trama.
Gloria (Christina Hendricks) é um paralelo dos rapazes dos anos 1980. No início do século, ela morre de tuberculose, uma outra doença muitas vezes fatal e que poderia ser um atestado de óbito em vida.
Gloria também é a imagem da diva sublime, que circunda o universo Queer, como fonte de admiração. A ideia poderia ser excelente e até mesmo quase genial.
Porque essa lógica traria a ideia de criação de símbolos e perpetuação da dor de classes minoritárias, porém falta liga para conectar o enredo com essa estratégia.
O paralelismo falha quando os diálogos não trabalham as ligações entre as épocas, nem que são essas duas figuras, Gloria e o protagonista Beau (Éanna Hardwicke).
Gloria vira somente um artefato perdido em cena, o que reforça o estereótipo que a obra parece querer quebrar. A presença de Hendricks é imponente, mas ela não se sustenta por si só na tela.
Mesmo que ela e Éanna se esforcem para contracenar e criar um sentido para as sequências, a interação não funciona. O mesmo pode ser dito do relacionamento de Beau com Tiny (Jack Wolfe)
A produção tenta ser sobre o envolvimento da dupla e a tragédia shakespeariana que foi a separação dos dois pela morte, causada pela doença.
Está tudo ali na cabeça do diretor, que se não sabia ainda quem eram esses homens em 1h46 de projeção, que fizesse um curta-metragem. Diversos cineastas primeiro criam uma obra de duração menor sobre um tema e depois expandem um dado universo.
Após essa compreensão da trama e seus envolvidos, eles partem para aumentar o tempo dos seus filmes. Falta tratamento de roteiro, mesa de discussão de decupagem, maturidade fílmica.
Por estas razões, Ancestors é um projeto ambicioso, que precisa de mais maturação. Ele tem boas intenções ao desejar preservar a memória de um tempo avassalador para o mundo.
Entre perdas e partidas, faltou Turpin enxugar suas ideias, criar coesão dentro do longa. Ao invés de abusar de repetições, dar tempo de tela para as explorar as personagens interessantes que ele mesmo criou seria o ideal.
Seja no silêncio ou em diálogos, Beau e Tiny mereciam mais. Inclusive, Turpin poderia até manter as reiterações se dentro delas fossem trabalhadas as emoções e personalidades das figuras em cena.
Novamente, o relacionamento de Tiny e Beau nao sai da mesma dinâmica. Beau trata Tiny mal. O homem gay mais feminino sendo oprimido por uma masculinidade do gay, que performa uma austeridade falsa é ainda um clichê dentro da ficção e da vida real.
Tudo isso é verdadeiramente uma pena, porque a equipe poderia, junta, subverter os clichês, o ar de déjá vu e investir na complexidade e força de uma temática que jamais pode ser esquecida.
Direção: David Turpin
Elenco: Éanna Hardwicke, Jack Wolfe, Christina Hendricks



