Não é de hoje que Hollywood parece depender quase estruturalmente de continuações, remakes e filmes calcados na nostalgia do público. Independente de gênero, os grandes estúdios parecem apostar boa parte de suas fichas nesse mercado. Não à toa, a tão esperada sequência do clássico dos anos 1990 encabeçado pela família Owens só conseguiu ser realizada e lançada agora. Após quase 30 anos de espera, Da Magia à Sedução 2 (cujo subtítulo oficial é Feitiço de Amor) enfim chega aos cinemas com a difícil missão de balancear nostalgia, qualidade narrativa e a essência do amado longa-metragem de 1998.
Apesar da química indiscutível das irmãs Owens (interpretadas por Sandra Bullock e Nicole Kidman), Da Magia à Sedução 2 perde em três frentes: roteiro, fotografia e efeitos especiais. E é preciso pontuar cada uma delas porque seu antecessor soube como trabalhá-las. Começando pela estrutura da narrativa, existe uma história clara que se estabelece para o espectador logo nos primeiros minutos do filme: existe uma forma de quebrar a maldição que assombra as Owens há séculos. O que parece ser uma proposta narrativa direta, se mostra um caminho cheio de desvios. Enquanto o primeiro longa parece até soar rápido demais em certas resoluções, mas sua sequência cria desvios demais para o que realmente importa.
O maior problema do roteiro de Akiva Goldsman, Georgia Pritchett e Kelly Marcel é sua falta de foco. Existem muitas histórias menores que não são centrais à narrativa que distraem o foco da proposta – especialmente o interesse amoroso da personagem de Sandra Bullock (Cidade Perdida, de 2022). Não só pelo momento e a forma como essa subtrama é inserida, mas por desviar o foco da missão que é o principal. A ideia de comicamente construir essa relação entre ela e o personagem de Lee Pace (O Sobrevivente, de 2025) e os questionamentos sobre o caráter dele distraem o espectador do que realmente interessa para a narrativa central: a relação das mulheres da filha Owens, a aceitação de sua magia e a tentativa de quebrar com a maldição. Infelizmente, Da Magia à Sedução 2 se perde em subtramas desinteressantes ou mal construídas – a inserção da figura antagonista, por exemplo, é vergonhosa -, distraindo o espectador do que realmente importa e que é o chamariz para os fãs.
Para além dos problemas do roteiro atropelando ideais e processos, é essencial discutir como um filme feito em 2026 pode perder tanto a ‘magia do cinema’ por trás do seu fazer. Apesar dos parâmetros mudarem, Da Magia à Sedução 2 depende excessivamente de efeitos visuais não práticos, o que tira um pouco do encantamento que havia no primeiro longa. É uma comparação quase injusta, mas é inevitável. O primeiro projeto realiza boa parte de seus efeitos de forma prática e com saídas interessantes, colocando o espectador num aspecto de crença que é essencial ao consumir uma obra de fantasia. Em vez do clima noventista e da atmosfera mais intimista, vemos na sequência efeitos especiais genéricos e pouco marcantes, mostrando que esse elemento não tem mais o mesmo brilho de antes.
Associado à isso, a fotografia de Da Magia à Sedução 2 também deixa a desejar. O resultado final do departamento, encabeçado por Simon Duggan (Furiosa: uma saga Mad Max, de 2024), não é horrendo, mas está longe de ser memorável. Não que a fotografia do primeiro longa fosse um primor, mas existia um encantamento com o uso da câmera, dos reflexos, das cores. Existia um clima de tensão, assombro e magia que a imagem ‘perfeita’ do novo projeto não abarca. É como assistir a uma longa publicidade, totalmente higienizada, milimetricamente calculada para que a imagem não tenha nenhuma imperfeição – mas não foi para isso que os fãs foram até os cinemas.
Apesar de todos esses deslizes – que não são poucos e podem atrapalhar a experiência de alguns -, Da Magia à Sedução 2 é estranhamente magnético graças ao seu elenco. A magia do projeto reside na química entre Kidman (Babygirl, de 2024) e Bullock, na graciosidade das participações de Dianne Wiest (Apartamento 7A, de 2024) e Stockard Channing e na surpreendentemente performance de Joey King (Feios, de 2024) – talvez uma das melhores de sua carreira. Ainda que em alguns momentos do filme possa haver uma desconexão do público com a produção, os momentos de afeto, trocas ou reforços da narrativa familiar feminina podem encantar e até mesmo emocionar.
O longa de Susanne Bier (Bird Box, de 2018) lida bem com o quesito nostalgia e adiciona algo de interessante para a narrativa familiar das Owens, mas se perde com suas subtramas e no desenvolvimento do antagonista. É estranho pensar sobre porque parecem existir dois filmes em um. O primeiro, é extremamente consciente de si e foca na emoção e nos laços familiares, como um drama de uma família que luta com os dilemas da vida. O segundo, por sua vez, é uma odisseia romântica entrecortada por uma crescente de mistério frágil e mal desenvolvido. Com isso, Da Magia à Sedução 2 provavelmente vai emocionar os fãs que clamaram pelo retorno das irmãs Owens, mas sem deixar de decepcionar por ser um longa que parece não ter entendido sua verdadeira missão narrativa.
Direção: Susanne Bier
Roteiro: Akiva Goldsman, Georgia Pritchett e Kelly Marcel
Elenco: Sandra Bullock, Nicole Kidman, Joey King, Lee Pace, Maisie Williams, Xolo Maridueña, Dianne Wiest e Stockard Channing
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