Existe uma coisa básica para que um filme de terror efetivamente funcione: é necessário torcer pela personagem central. Zona zero não consegue esse feito e ainda entrega uma narrativa irregular.
A inconstância da qualidade ocorre porque, no início da obra, a história parece caminhar para algo diferente do costumeiro, quando o assunto são zumbis.
A premissa gira em torno de um cientista, que cria um vírus avassalador, propositalmente e por motivos não nobres, mesmo que ele pense que é para um bem maior, a vingança é seu mote central.
A maneira como a lógica de colônia (título original do filme, inclusive) é quase criativa. Principalmente porque eles possuem um sistema que se assemelha ao digital e liberam uma gosma, que cria um paralelo com a atualidade.
Talvez, essa discussão seja o que há de mais interessante aqui. Há um discurso que parece dizer como essa horda pode ser tola, quando age por imitação.
Todavia, a dinâmica de agrupamento zumbu já estava em produções como Terra dos Mortos (2005) e The Last of Us, de forma mais contundente, porque amarram a proposta com o desenvolvimento do roteiro.
O que ocorre com Zona Zero é que, no início da projeção, a história cria uma dinâmica instigante. O fato de existir um homem capaz de controlar os zumbis estabelece um clima de tensão.
Nesse cenário, o cientista Seo Yeong Cheol (Koo Kyo-hwan), que criou o vírus transformador dos humanos, é mais um empecilho de fuga e isso poderia criar uma imprevisibilidade na trama.
Ainda que o plot com pessoas malvadas criando zumbis ou mandando criá-los exista desde os anos 1930/1940, a diferença está na maneira como o antagonista é atualizado com um pensamento contemporâneo.
Ele acredita que é o único que pode melhorar a sociedade e isso significa implantar um sistema dele mesmo. Esse é um jeito que ele encontra de obrigar as pessoas a cumprirem a sua autocracia.
Caso esse caminho da produção fosse mais explorado, o longa seria bem sucedido em sua totalidade. Contudo, Cheol fica apenas na superfície e suas intenções e sentimentos não são aprofundados.
Na realidade, a protagonista e seus coadjuvantes também são planos. As personagens clichês são colocadas na tela e não são investigadas. O filme tem a cientista que se auto-sabota, o ex-marido preocupado, uma dupla que faz bullying, o empresário egoísta e por aí vai…
O problema não está em colocar figuras batidas ou um vilão de razões pouco trabalhadas e sim o encontro dos dois elementos. Porque quando isso ocorre em um título de terror, as ações se tornam vazias.
Para se salvar, Zona Zero teria que ter uma premissa inovadora ou ser visualmente estimulante. O plot em si é repetitivo, para além da parte óbvia de como o vírus afeta os humanos.
Porque ainda existe o fato de que tudo isso acontecer em um centro comercial. Sugaram o tanto que puderam de George A. Romero e, ainda assim, não alcançaram o objetivo de criar um terror tenso e intenso.
Romero conseguia explorar suas personagens e o contexto de suas narrativas. Além disso, algumas sequências dão uma sensação de deja vu. Todo o primeiro ato se assemelha a Zombie – o despertar dos mortos (1978).
Há muito de Madrugada dos mortos (2004, de Zack Snyder) – só para citar os que mais se assemelham. Essa miscelânea genérica cansa o espectador.
No final das contas, a melhor opção é ver outras produções com zumbis. Existem diversos filmes no mundo que contam essa mesma história até, mas de forma mais criativa e aprofundada.
Sem grandes surpresas, mas desesperado para ser diferente, o roteiro ainda tenta enganar o público com reviravoltas mirabolantes. Talvez, esse seja o mal da década, essa quebra do pacto com o espectador.
É infundado trazer regras que serão quebradas sem um desenvolvimento. No cinema, tudo pode ser disruptivo e fugir da norma, se isso é feito com um objetivo, seja ele estético ou discursivo.
Mas, Zona Zero é mais um daqueles longas que querem provocar sensações e esquecem que o cinema é uma linguagem plural. Efeitos de câmera e de narrativa existem, porém a base de tudo é a história em si e com obviedade a obra não se sustenta.
Direção: Yeon Sang-ho
Elenco: Jun Ji-hyunKoo, Kyo-hwanJi, Chang-wook
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