Transformar a dor advinda da masculinidade frágil em uma discussão profunda pode ser desafiador. E é essa a luta de Tom Nicoll (Educated), que procura trazer o que há de interessante nesta pauta, em 91 minutos de projeção.
Danny Carlton (Liam Harkins) é um homem médio branco escocês que sonha em ser um rico coach de vida. Ele investe bastante tempo e dinheiro em busca de um padrão masculino de força, riqueza e poder inalcançável.
Neste sentido, Tom é feliz ao introduzir de forma aberta a crítica a esse universo de uma venda de um imaginário tóxico e vazio. Para uma primeira direção de longa-metragem, é impressionante ver como o cineasta se vale de angulações de câmera para fomentar seu discurso.
Danny tenta ser o centro do mundo e nem ao menos em sua própria realidade (trabalho, amigos, família) ele alcança esse objetivo. O rapaz está sempre à margem e o jogo com as razões de aspecto também revela esse escanteamento e sufocamento do protagonista.
Há dentro desta lógica uma progressão dramática, que revela um talento de Nicoll em contar uma história, seja em seu roteiro ou sua direção. As ações desmedidas de Danny crescem lentamente e pioram a sua situação a cada minuto.
Assim, Salvation tem um argumento sólido e quase bem desenvolvido. No entanto, existem dois grandes incômodos aqui. O primeiro deles é a indecisão entre tragédia e comedia. É possível mesclar os dois, porém de forma consciente.
Além da dramédia em si, sempre existirá um pouco de cada um nos gêneros, mas aqui a plateia nao consegue criar um laço empático ou se distanciar o suficientemente a ponto de criticar Danny. Esses são os elementos básicos da construção de dramaturgias.
Essa indecisão se dá porque Nicoll fica preso demasiadamente nas peripécias e não desenvolve seu protagonista. Toda a superficialidade do mundo coach se reflete nas ações do longa-metragem.
Existem dores provocadas pela masculinidade frágil e pela sociedade de aparências que é são bastante sérias para serem vistas como piada ou na superfície. A equipe poderia explorar com mais desenvolvimento essas camadas.
Neste sentido é que existe o segundo elemento que poderia ser melhor executado. A direção também não fomenta essa exploração da personagem. É curioso observar que as camadas de Danny estão ali, mas não são investigadas.
As sensações trazidas pela encenação não são suficientes para o aprofundamento desta figura central. Falta entender quem ele é, mais do que o que acontece com ele. Esse fator talvez não fosse um problema se a produção escolhesse que viés quer abordar, de fato.
É para o publico rir de Danny? Odiá-lo? Relacionar-se com ele pela humanização Nenhuma dessas características sao trabalhadas em discurso e linguagem. Mesmo que fosse algo multifacetado esses lados precisariam ser observados.
Desta maneira, Salvation é um comentário geral sobre um tipo de gente de uma época. Ainda que cumpra um serviço de abordar um problema de seu tempo, a ingenuidade sobrevalece quando Tom Nicoll fica apenas nas bordas da questão e não investe em mergulho algum.
Direção: Tom Nicoll
Elenco: Liam Harkins, Stephen McMillan, Kathleen McDermott



