Entre os anos de 1981 e 1990, a TV Cultura exibia em sua grade o programa Festa Baile. Inicialmente, apresentado por Branca Ribeiro e Agnaldo Rayol, ele era gravado em um clube e possuía uma plateia que dançava ao som de músicas tocadas ao vivo. O público era, majoritariamente, formado por idosos. Este universo e, principalmente, os seus bastidores foram filmados em 1983, pelo grupo TVDO. O coletivo havia sido contratado para fazer Avesso, uma série onde diversos eventos seriam mostrados, com um olhar mais contemporâneo e experimental. No entanto, o conteúdo não agradou e a produção foi cancelada. Este dado foi divulgado pelo diretor Tadeu Jungle.

Todo este contexto é necessário para falar sobre Avesso Festa Baile. É curioso notar o olhar apurado para as situações. Os constantes planos detalhes parecem querer investigar quem são aqueles indivíduos, o que eles sentem e estão buscando ali, naquele local, sejam eles integrantes do público ou da equipe do programa. É quase assustador notar a diferença no tato das pessoas em relação à câmera naquele período e agora. Existia certa tensão e falta de contato com aqueles equipamentos, com falar com o microfone. Diferentemente de 2020, onde uma grande quantidade de pessoas tem redes sociais e se comunica com destreza para seus seguidores.

Existe também algo forte aqui que é a proximidade da câmera. Através de enquadramentos bem próximos – seja com closes ou detalhes –  são revelados o suor da pele, as rugas, o pelo do corpo e até a água com sabão que cai no corpo de Rayol, enquanto ele toma banho. Assim como ele, é como se todos estivessem se desnudando de certa maneira, ainda que existam as roupas elegantes e até um discurso um tanto performado. Os relatos se tornam mais íntimos justamente por estas seleções de plano, mas também pelas sugestões de ações que são dadas para os entrevistados: “cante”, “dance”, “conte para gente”. São comandos que acabam por entregar alguma espontaneidade, por esta ausência de habilidade ou pela surpresa do pedido. 

Além disso, há um outro ponto alto em Avesso Festa Baile. Ao observar as entrevistas feitas com integrantes da plateia, nota-se que algumas falas contêm contradições e a montagem se vale delas para lançar mão não apenas de uma graça daquele cenário mostrado, como  um enriquecimento sobre este universo. Um exemplo é quando duas senhoras contam razões diferentes para irem para o Festa Baile. Enquanto uma diz que vai para procurar namorado, a outra nega este comportamento e conta que não acha que ninguém está buscando paquera naquele ambiente. O corte entre um depoimento e outro faz com que a contraposição seja notada de maneira mais intensa. 

Não dá para saber se todas essas escolhas foram tão pensadas assim, mas o resultado é bastante rico e imprime um retrato daquela geração de senhores e senhoras que estavam querendo curtir a vida nos anos 1980, com o que, para eles, era o ápice do charme e da elegância, digamos assim. Contudo, há algo no tom desta produção que incomoda. Ainda que todos ali estejam sendo colocados em exposição, tem algo sobre a mulher idosa que está sempre posta como namoradeira e/ou desesperada. Tem algo que passa por uma ridicularização. Mas, isto não compromete a totalidade da obra, ainda mais se quem assiste focar no fato de que estamos falando de 1983, momento em que, talvez, a imagem da mulher fosse ainda mais tratada com uma misoginia “naturalizada”.

Direção: Tadeu Jungle

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