Destaque no Festival de Toronto em 2018 e lançamento no circuito comercial estadunidense e europeu no primeiro semestre de 2019, o sci-fi High Life da renomada diretora francesa Claire Denis chega para o público brasileiro direto para plataformas de locação com praticamente um ano de atraso. Isso não é novidade para esse tipo de produção que parece ficar numa zona cinzenta de indefinição de lançamentos nacionais, já que o título não é um blockbuster tampouco um dos indicados ao Oscar. Ainda assim a omissão foi estranha porque Denis é uma realizadora reconhecida por sua obra e seus lançamentos sempre são aguardados por parte do público. O que é certo é que o título com Robert Pattinson (O Farol) e Juliette Binoche (Quem Você Pensa Que Sou) no elenco merecia uma estreia mais destacada no Brasil, do que esse tímido e problemático lançamento doméstico, afinal, cópias em torrent do longa já estão por ai há meses..

High Life é uma dupla estreia para a diretora. É o seu primeiro longa em língua inglesa e sua primeira ficção-científica e logo de cara se percebe como Denis não tem muita dificuldade para trafegar por essas novidades. High Life é propositivo de debates como boa parte das produções de Denis com uma narrativa que foge por completo do didatismo e da pirotecnia de efeitos digitais, atingindo o âmago do gênero sci-fi em seus exemplares de melhor performance, sua verve filosófica.

Em High Life, um grupo de condenados por crimes vai parar em uma estação espacial como forma de substituir as suas penas na Terra. Lá eles acabam se submetendo aos experimentos de fertilização de uma médica obstinada nesse propósito, interpretada por Juliette Binoche. Um dos condenados mais relutantes ao projeto acaba sendo cobaia central do experimento da cientista e a repercussão dessa ação levanta ainda mais conflitos na já tensa relação entre esses personagens.

High Life, Coisa de Cinéfilo

High Life tem como mote central discutir a chance de redenção de figuras que no passado foram capazes de cometer atrocidades, como é o caso da personagem interpretada com muitas nuances por Binoche, mas também do emblemático “monge” vivido por Robert Pattinson, que na sua relação com uma bebê consegue vislumbrar expectativas de vida bem diferentes das que foram traçadas até então para sua jornada. O longa de Denis tem uma maneira interessante de tecer essa história, sem expor toda a biografia dos seus envolvidos e as lacunas do passado de cada um deles acabam sendo ainda mais instigante para os questionamentos que se abrem a partir dali, sobretudo no que diz respeito ao seu protagonista interpretado por Pattinson.

Denis usa um gênero não apenas como forma de vislumbrar um futuro ou fazer questionamentos existenciais mas como forma de desenvolver ideias sobre a convivência em confinamento daqueles personagens. O que eles são capazes de fazer com essa segunda oportunidade de vida em situações que testam ainda mais sua ética é o grande mote analítico da obra. Alguns personagens confirmam sua natureza violenta e individualista, outros encontram um novo propósito de vida e fazem uma correção de rumo, surpreendendo o público e eles mesmos por tomarem decisões inimaginadas. Essa capacidade de lançar esse olhar é o que faz da condução da diretora e roteirista um primor e tornam o filme mais um grande acerto da sua carreira.

Direção: Claire Denis
Elenco: Robert Pattinson, Juliette Binoche, Mia Goth, André Benjamin, Agata Buzek, Lars Eidinger, Claire Tran, Ewan Mitchell, Gloria Obianyo

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