Nas últimas eleições em diversos países do mundo, o papel das tecnologias, usadas por grupos articulados em prol da mobilização da opinião pública através de fake news, foi devastador para muitas democracias. O estímulo à articulação de grupos extremistas e ações extremamente violentas física e psicologicamente a “minorias” sociais têm sido um dos resultados desse processo. Rede de Ódio do polonês Jan Komasa (o mesmo de Corpus Christi) é um dos títulos mais recentes a explorar essa temática e chega para o público brasileiro diretamente no catálogo da Netflix.

No longa, um jovem que acaba de sair da faculdade de Direito após ser acusado de plágio passa a trabalhar em redes sociais articulando manipulações da opinião pública. Os alvos cujas reputações o rapaz é responsável por arruinar são escolhidos por um escritório para o qual ele trabalha e que parece ter por prática esse tipo de estratégia nada ética. Conforme o jovem é bem sucedido em suas ações, ele começa a ocupar lugar de destaque na empresa sobretudo quando a nova vítima em questão é um político em ascensão.

A partir do roteiro de Mateusz Pacewicz, Komasa tem em mãos uma trama super intrincada que transcorre em ascendente tensão, sobretudo por assumir como ponto de vista o olhar do seu maléfico protagonista interpretado pelo ótimo Maciej Musialowski, que consegue conferir, ao mesmo tempo, um tom gélido e de crescente loucura para seu personagem conforme ele mergulha na espiral de manipulações que articula ao longo da trama. Musialowski consegue trazer para tela um arco complexo, cheio de nuances e que tira o seu personagem de um ponto e o leva a outro ao fim da história sem perder de vista a frieza com a qual o mesmo lida com todas as situações, mesmo aquelas que o colocam em circunstâncias de completa perda de controle ou em teste emocional. Ao mesmo tempo, é perceptível como esse protagonista é movido por um ressentimento que o faz ser gradualmente consumido por uma cólera, manifesta de forma silenciosa em seus atos por uma personalidade norteada claramente por uma psicopatia.

Rede de Ódio, Coisa de Cinéfilo

Komasa desenvolve ideias sobre uma sociedade ególatra demais e que subestima um inimigo silencioso que se articula “debaixo dos seus olhos” e de repente vira toda uma coletividade do avesso com sua ética invertida, ou seja, retrato do que tem acontecido com muitas democracias que não levaram em conta a capacidade de articulação e manipulação das ferramentas de comunicação digital por grupos mal intencionados. Rede de Ódio tem uma tendência exageradamente conspiratória, por vezes transformando seu perverso protagonista no único personagem capaz de tomar as rédeas da situação, mas não deixa de elucidar pontos da contemporaneidade de maneira eficiente e objetiva.

Algumas soluções da trama soam fantasiosas demais (a facilidade com que o protagonista tem de entrar em determinados lugares, por exemplo), mas não deixa de ser uma obra instigante e perspicaz que reflete muito bem questões preocupantes do seu próprio tempo. O tema nevrálgico de Rede de Ódio é a vulnerabilidade com a qual democracias se colocam em espaços de discussão online e como sujeitos nocivos se apossam desse mesmo sistema democrático para ruir essa mesma sociedade fomentando polarizações e instituindo um verdadeiro estado de guerra civil.

O filme faz a gente pensar como a gente tem perdido a capacidade de escuta, empatia e, consequentemente, nossa humanidade, por deixar se levar pelas ondas de opinião maliciosamente orquestradas por gente mal intencionada e também como todo esse aparato digital tem sido habilidosamente utilizado para a conquista do poder. Tudo porque encontra eco em nossas fragilidades ou na falha de caráter da humanidade, o preconceito. É um mundo assustador, mas, infelizmente, cada vez mais concreto. De certeza, somente a urgência de parar essa máquina.

Direção: Jan Komasa
Elenco: Maciej Musialowski, Vanessa Aleksander, Danuta Stenka, Jacek Koman, Agata Kulesza, Maciej Stuhr, Adam Gradowski

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