O anúncio de uma sequência de sucesso para um filme de terror já é algo de praxe para os estúdios atualmente. A atitude, ainda que esperada, levanta alertas para o público sobre a qualidade do que virá na nova produção. No gênero, o histórico não tem o melhor dos precedentes, como M3GAN 2.0, que mesmo não sendo ruim, mudou totalmente sua estrutura e abandona o horror, ou Eu Sei o que Vocês Fizeram no Verão Passado, que é uma sequência-legado terrivelmente fraca e narrativamente instável. Nessa lógica, os fãs de horror se preocuparam com o que poderia ser Telefone Preto 2, continuação do sucesso de 2021.
Apesar das especulações a partir do marketing do filme e da ‘maldição’ das sequências dentro do gênero, o novo filme do diretor Scott Derrickson (Doutor Estranho, de 2016, e Entre Montanhas, de 2025) não deixa nada a desejar em comparação ao primeiro. Em sua sequência, o cineasta e co-roteirista escancara as portas do sobrenatural e mergulha de cabeça nessa jornada, se aproximando de uma entidade tão cruel quanto o Freddy Krueger. Telefone Preto 2 tem a coragem de se distanciar do suspense investigativo do primeiro longa para focar numa fantasia de horror oitentista.
A narrativa de Telefone Preto 2 começa quatro anos após os eventos do primeiro filme. Finney Blake (interpretado por Mason Thames) está tentando lidar com o trauma do seu passado. Tanto as memórias do sequestro quanto o peso de ter matado o Sequestrador (interpretado por Ethan Hawke) ainda mexem com sua cabeça. Enquanto isso, sua irmã Gwen (interpretada por Madeleine McGraw) começa a ter visões de um acampamento com crianças mutiladas. O problema é que os pesadelos dela são visões do novo confronto que eles precisarão ter com o Sequestrador, afinal, morto é só uma palavra.
O roteiro de Derrickson e C. Robert Cargill (A Entidade, de 2012, O Telefone Preto, de 2021) opta por explorar esse outro elemento presente no filme anterior, tornando isso o mote central da trama. A jornada médium das crianças – agora já adolescentes – ganha espaço, dando ainda mais desenvolvimento para os personagens, especialmente para Gwen, que ganha mais protagonismo e tempo de tela em Telefone Preto 2. O alcance dos seus poderes psíquicos e o que eles revelam sobre o passado do Sequestrador e de sua família. Ao mesmo tempo, os roteiristas investem ainda mais em trazer o público para dentro de uma época, evocando elementos que te transportam no tempo.

Ainda que a história foque mais na personagem de McGraw (A Família Mitchell e a Revolta das Máquinas, de 2021), Hawke (O Mundo Depois de Nós, de 2023) e Mason Thames (Como Treinar Seu Dragão, de 2025) continuam a ter bons momentos em tela, mostrando o alcance de suas interpretações e o patamar de desenvolvimento no qual seus personagens chegaram. Igualmente, o roteiro permite alguns momentos interessantes de Armando, o supervisor do acampamento (interpretado por Demián Bichir), mostrando que Derrickson e Cargill conhecem os meandros da história que criaram e sabiam para onde queriam seguir em Telefone Preto 2.
Apesar de acertarem em muitos pontos, como no investimento do horror fantástico e sobrenatural, na expansão do passado do Sequestrador e da família Blake, o roteiro desliza no pouco desenvolvimento do pai de Finney e Gwen, interpretado por Jeremy Davies. Como já mostrado em seu antecessor, Davies é capaz de diferentes nuances em sua interpretação e, diante dos eventos assombrosos sobre seu passado e vivido por seus filhos, ele merecia um cuidado maior durante Telefone Preto 2.
Outro elemento que vez ou outra acaba pesando é o uso da estética de fita VHS. Assim como no primeiro filme, Telefone Preto 2 continua a usar a textura de VHS para separar o que é sonho/visões do que acontece quando se está acordado. Mesmo que seja um recurso interessante e visualmente apelativo, ele é excessivamente usado ao longo do filme, o que acaba cansando um pouco o espectador. Existe, é claro, uma coerência estética nesse uso, uma vez que a sequência é um filme repleto de sonhos e visões, mas uma saída para equilibrar esse uso e não cansar o recurso teria sido interessante.
No fim das contas, Telefone Preto 2 é uma sequência que vale a pena pelo seu esforço em se manter coerente com o que veio antes, sem perder a oportunidade de investir em algum outro elemento. A escolha de mergulhar no sobrenatural pode desagradar alguns, mas ela é uma decisão que se prova intrigante para a proposta da nova história de Derrickson e Cargill. Assim, o longa é um prato cheio para os fãs de histórias de horror fantástico oitentistas, repleto de elementos que te fazem mergulhar naquela atmosfera de cabeça.
Direção: Scott Derrickson
Elenco: Mason Thames, Madeleine McGraw, Ethan Hawke, Jeremy Davies, Demián Bichir, Miguel Mora, Anna Lore, Arianna Rivas, Graham Abbey e Maev Beaty
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