Shadow

Crítica: Shadow

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Dirigido por Yimou Zhang (Herói), há uma mescla qualitativa em Shadow. Ao mesmo tempo em que ele consegue trazer cenas de lutas bem coreografadas, que emocionam e empolgam o espectador, o seu roteiro possui diálogos datados e ingênuos. Além disso, ele contém quebras rítmicas, nas quais o equilíbrio de velocidades e construção de sentido do enredo vão se perdendo. Desde o seu início, o espectador pode sentir um estranhamento. Após uma cartela explicativa sobre o contexto que será trazido no filme, quem assiste se depara com uma espécie de tentativa de estabelecimento de atmosfera.

No entanto, é árdua a tarefa de crer no universo ficcional apresentado em Shadow. A começar pelo rei Pei (Ryan Zheng), que se aproxima de algo como um Jack Sparrow, de Piratas do Caribe. Apesar de ser intencional a tolice de sua personagem, a construção de corpo e voz do ator acaba por quebrar o clima de seriedade que as cenas parecem desejam passar. Nesta indecisão de tom, cômico ou trágico, o público se desconecta com a história do longa-metragem. Pei não é o único que se perde na canastrice. O comandante Ziyu (Jun Hu) também está embebido desta ausência de controle da sutileza e imprime na tela uma interpretação que externaliza demasiadamente os seus sentimentos e pensamentos. Os seus gestos não são orgânicos e Hu pesa a mão nos gestos, na voz e na sua movimentação. Mas, talvez, o ponto central – que acaba por interferir na criação dos atores, sem dúvidas – seja o texto.

Shadow

As falas são expositivas e preenchidas de uma visão estereotipada e binária do masculino e do feminino e de suas posições dentro da sociedade. Ainda que se passe em uma China do período dos Três Reinos (220-280 dC), o tratamento dos encaminhamentos da trama é incômodo, tanto no que se refere à Lin quanto a princesa. Ambas não têm escapatória e seus destinos são todos traçados pelos homens de suas vidas. Há um determinismo nas ações das personagens, que se confirma a cada minuto de projeção, o que, além de tudo, acaba por deixar as sequências bastante previsíveis. As relações são frágeis, sendo elas românticas ou fraternais. As ligações entre estas pessoas são repentinas, o que deixa um tanto injustificável as suas reações em momentos de dor ou conflitos.

Por fim, a exibição acaba por ser cansativa, pois o tempo para as performances de Pei e do comandante Ziyu é mais extenso do que para o próprio desenrolar do plot principal: a batalha contra o reino de Yang. Desta maneira, é preciso acelerar as engrenagens da narrativa do segundo ato em diante, pois muitos minutos foram empregados para longas passagens destas duas figuras, que estão ali apenas para dizer o óbvio, o já compreensível a partir das imagens.

Contudo, o que vale mesmo em Shadow é observar a direção de Zhang, que convoca movimentações de câmera e enquadramentos que revelam mais sobre o longa do que todo o restante. As tensões são fomentadas pela expectativa criada pelas imagens ali presentes. Há uma suspensão maior ainda, pois Zhang seleciona minuciosamente o que deseja mostrar e quando vai fazer isto. Mas, no geral, o cineasta não consegue salvar o resultado final, pois dentro de todos aqueles tipos, atuações e momentos exagerados, fica difícil que a sutileza de Yimou Zhang como diretor cubra o tamanho do alarde dos outros elementos, inclusive do seu roteiro, escrito ao lado Li Wei.

Direção: Yimou Zhang

Elenco: Chao Deng, Li Sun, Sujin Zhu

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