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Crítica: O Poço

Há um hábito muito comum no espectador de cinema atual. Ao se deparar com um filme que tenha uma interpretação minimamente ambígua, ele se dirige a internet para procurar vídeos que ajudem-no a decifrar as possíveis interpretações. São os famosos vídeos de “Final Explicado”. Certamente, nesse tipo de conteúdo, diversos simbolismos devem ter sido analisados, incluindo o números dos andares, frases do livro Don Quixote e, obviamente, todas as críticas ao capitalismo que a obra traz. Porém, ao fazer isso, você parece ter caído no mesmo problema que Goreng (Ivan Massagué), o protagonista. O Poço lhe enganou.

Na história, Goreng acorda no andar 48 de um lugar chamado “O Poço”, dividido em mais de 200 níveis e com 2 pessoas em cada um. Além disso, um banquete cheio vai descendo por eles e, obviamente, chegando com menos comida conforme avança. A cada mês, tanto as duplas quanto suas posições naquela sociedade são mudadas aleatoriamente.  

Aliás, o roteiro de Rivero e Desola já estabelece essa ligação com o espectador desde o momento inicial, uma vez que Goreng se encontra na clichê situação do protagonista que não sabe como o mundo a sua volta funciona. Por isso, os primeiros minutos são dedicados a uma exposição narrativa que vem de um personagem já integrado naquele ambiente. Assim, quem cumpre essa função de ser o expositor verborrágico da trama é o primeiro companheiro de Goreng, o idoso Trimagasi (Zorion Eguileor), que já está há meses ali. 

Curiosamente, há um apreço neste personagem pela palavra “óbvio”. Para ele, todas as perguntas feitas pelo seu companheiro são óbvias. Neste sentido, o roteiro é até estranhamente verborrágico em diversas situações onde as próprias imagens poderiam falar por si só. Por exemplo, não precisaríamos de Trimagasi falando que se eles mantiverem algum alimento com eles, o andar vai progressivamente esquentando até eles morrerem ou devolverem. Afinal, tudo aquilo já estava sendo demonstrado visualmente, então se torna uma fala desnecessária.

Logo, é quase como se o protagonista fosse esta personificação de um público que precisa de todas as respostas mastigadas ao máximo possível e que sente a necessidade de entender ao máximo o funcionamento daquela estrutura na qual ele faz parte. Contudo, o que O Poço traz para esses questionamentos são somente frustrações. Inclusive, isso é algo se manifesta principalmente na direção de Galder Gaztelu-Urrutia. À primeira vista, poderia até se dizer que a decupagem — a maneira como um diretor decide filmar uma cena do roteiro — do filme é preguiçosa, uma vez que o espanhol resolve quase tudo em planos e contraplanos, além de ser uma das obras recentes que eu mais tenha visto utilizar extremos close-ups. Não há a menor preocupação em dar uma noção espacial precisa daquele quadrado que eles moram e de sua relação com os níveis vizinhos. 

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Portanto, tudo aquilo que parecia mal resolvido, na verdade, aumenta essa sensação de não obter respostas, uma vez que é tudo muito limitador e sufocante visualmente. No mesmo sentido, os níveis terem um design igual, além das próprias paredes e uniformes serem predominante cinzas, reforçam este tom nada estimulante, mas muito pelo contrário, morto. 

Se a nível estético e técnico as respostas não parecem vir, tampouco elas chegam conforme a narrativa avança. É fácil identificar a maioria das metáforas que falam sobre as diferenças de classes em O Poço e sua estrutura capitalista decadente, mas é notável também que o texto evidencia todas as falhas nas alternativas propostas pelo protagonista. Isso fica explícito quando ele vai tentar fazer a comida chegar nas classes inferiores, numa espécie de comunismo improvisado, mas que acaba virando um banho de sangue e extrema violência. Ou seja, é um filme que constante rejeita dar respostas ou soluções. Até logicamente, diversos acontecimentos parecem não fazer muito sentido, como a existência da menina naquele lugar e a ambiguidade de sua existência.

Nesta altura da trama, Goreng já está tão obcecado em enviar uma mensagem para os “Administradores”, que os próprios fins passam a justificar os meios, não percebendo que ele está, na verdade, reforçando o mesmo sistema que ele está tentando derrubar. Como pode haver justiça em matar quem está no nível 5 para dar comida a pessoa do nível 150, se no mês passado as situações eram invertidas? Tudo isso em nome de uma ideia extremamente duvidosa, uma vez que mandar uma mensagem parte do pressuposto de que há um motivo para a existência daquele inferno e que alguém receberá aquele ato de rebeldia, e não que tudo é aleatório. 

No fim, em uma espécie de metalinguagem, o diretor — que aqui poderia ser tanto o Urrutia quanto o próprio “Administrador” — que detém o poder, decide cortar antes de dar qualquer resposta, mostrando que todo aquele banho de sangue foi um desperdício. Não deixa de ser curioso que Goreng é alguém que voluntariamente se candidatou para estar ali, quase como um espectador que escolhe ir ao cinema. E é justamente ao invés de tentar se deixar levar pela experiência, com sua vontade de olhar “por trás dos panos”, é que ele entra em uma queda caótica na qual não obtém nenhuma resposta. Ao acabar, O Poço se revela tanto uma frustração para seu protagonista quanto para o espectador. E descobrimos que nem sempre precisamos de todas as respostas, uma vez que às vezes, simplesmente não há lógica naquilo tudo. 

Direção: Galder Gaztelu-Urrutia
Elenco: Ivan Massagué, Zorion Eguileor, Antonia San Juan, Emilio Buale, Alexandra Masangkay, Zihara Llana, Mario Pardo, Algis Arlauskas, Txubio Fernández de Jáuregui, Eric Goode

Assista ao trailer!

 

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