Hereditário é uma das obras de terror mais aclamadas da década. A produção de Ari Aster se destacou pela minuciosa direção, uma poderosa atuação de Toni Collete e toda sua ambientação macabra. Assim, seu roteiro era o que menos importava. Infelizmente, Influência nova produção espanhola da Netflix não conseguiu compreender a obra anterior. Pior do que isso, pois tornou-se uma cópia sem alma de seu enredo, mas que falhou em todos os outros aspectos.

Influência começa quando Alicia (Manuela Vellés, Um Caminho de Luz) volta para a antiga casa da família com o objetivo de cuidar de sua idosa mãe, que respira por aparelhos e é auxiliada pela outra filha, Sara (Maggie Civantos, Vis a Vis). Junto com sua filha, Nora (Claudia Placer, Vis a Vis), e o marido, Mikel (Alain Hernández, O Fotógrafo de Mauthausen), Alicia descobrirá que uma força oculta impede a morte da matriarca, ao mesmo tempo que fantasmas e traumas de seu passado retornam.

Dirigido e escrito por Denis Rovira van Boekholt, o longa é, primeiramente, refém de seu próprio ritmo. Apenas com uma hora de película que, de fato, a narrativa engrena e o diretor decide adotar um terror visual mais intenso (gore). Antes disso, só provocações habituais, com jumpscares bobos, como o marido que surpreende a esposa por trás e a edição de som realça o momento com um grande barulho.

Além do mais, as escolhas estéticas de Rovira são extremamente questionáveis e gratuitas. Marcado pelo vermelho no interior da casa e pelo verde nas locações exteriores, essa excessiva coloração no design de produção acaba saindo como um tiro na culatra. Com o tempo, a visão do espectador se acostuma com a paleta e o caráter místico da casa perde toda sua força.

De mesmo modo, o realizador espanhol usa uma lente fisheye no meio de uma cena que, ainda que naquela situação crie uma sensação de perda de profundidade, torna-se desproposital dentro da obra como um todo. Não só isso, como a câmera, quando certo personagem vai arrombar uma porta, acompanha o movimento de um machado uma vez para depois não repetir o movimento.

Influência

Entretanto, para não dizer que tudo é um desastre, Rovira adota um paralelismo visual com um plano aéreo ao longo de Influência que possui uma satisfatória justificativa no terceiro ato. Por outro lado, há diversos planos-detalhes que fingem ser um efeito Kuleshov — quando a câmera foca em um objeto da trama que será importante posteriormente — e diversas subtramas que ameaçam surgir, mas jamais possuem a importância explanada. Só para exemplificar: a máquina de costura que liga sozinha; o facão na parede; o walkie-talkie; a máscara preta; o trauma do primo; o machucado na mão; o bullying sofrido por Nora; o marido dançando heavy metal; a morte do eletricista. Ufa.

A pretensão é tanta, que é como se o diretor estivesse deslumbrado por comandar um longa-metragem pela primeira vez. Aliás, há uma cena de violência com animais que também não possui outro propósito, senão chocar. Neste sentido, nos poucos minutos que Influência se assume como um terror do subgênero de bruxaria, é que ele realmente assusta, através de uma ótica de simbolismos marcados por caveiras e aranhas. No resto do tempo, ele insiste na ingenuidade de achar que uma senhora numa cama e uma meninininha são ameaças horripilantes o suficiente para sustentá-lo. Similarmente, o filme é marcado por transições abruptas, o que também sabota o pouco de temor causado pela história, uma vez que tira completamente o público de sua imersão.

Quanto as atuações, Vellés e Civantos, apenas com olhares e pelo modo de falar de suas personagens, conseguem demonstrar que há conflitos do passado não resolvidos, mas no fundo desejam se reconciliar. Todavia, quando vai para o terror, nenhuma das duas conseguem trazer credibilidade o suficiente, seja Vellés com seus gritos histéricos ou Civantos pelos olhos arregalados. Enquanto isso, Hernández faz o típico marido macho man e a menina Placer está longe de entrar no hall das crianças assustadoras do cinema.

Por fim, Influência é um bom exercício para estudantes de cinema aprenderem a como não fazer horror. Nem uma possível subcamada de abuso maternal traz profundidade à produção espanhola, que prefere chocar por chocar. Curioso que, se há uma conclusão a se tirar do longa, é como Ari Aster possui muitos méritos. Afinal, o diretor pegou um fraco esqueleto de roteiro e o transformou numa referência para o terror moderno. Ao passo que nas mãos erradas, um total desastre se tornou real.

Direção: Denis Rovira van Boekholt
Elenco: Manuela Vellés, Maggie Civantos, Alain Hernández, Claudia Placer

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