Algumas obras são o que elas são e pronto. Esta que vos escreve acredita bastante na lógica de se julgar uma produção pelo o que ela pretende fazer e como ela o faz para alcançar tal intento. Assim, este texto sobre Feel The Beat (disponível na Netflix) vai procurar justamente abordar o filme olhando para o que ele deseja ser. Pensando assim, é possível falar que, em sua totalidade, ele oferece um material eficiente. Em seus primeiros minutos, é possível entender quem é a protagonista da trama, seus desejos e características centrais de sua personalidade até então. April (Sofia Carson, Descendentes) é uma dançarina bastante dedicada, séria, autocentrada e que mora em Nova Iorque. Contudo, a jovem está cheia de dívidas, é despejada de seu apartamento e volta para sua cidade natal.

É a partir daí que a trama se desenrola. Obviamente, todos do local são calorosos e animados e ela é fria e irritadiça. Seja no texto, nas cores da arte e dos figurinos, este contraponto é bem reforçado em seu começo e, claro, vai se dissolvendo conforme April vai se transformando. Contudo, a premissa e os resultados da narrativa aqui não são o mais importante, porque isto o público já viu repetidamente em diversas Sessões da Tarde. É o “como” tudo acontece que faz a projeção valer cada minuto.

A começar pela construção de personagem do núcleo infantil. Ainda que não exista tempo de tela para maturar cada uma das meninas da companhia de dança é possível enxergar particularidades em cada uma delas, através de traços de personalidades que surgem em alguns diálogos e de como elas se comportam na contracena, revelando que há uma direção de atores cuidadosa, que sabe como trabalhar com crianças. Além disto, há uma criação e estabelecimento de empatia para com elas, pois existe uma proximidade com seus sentimentos, medos e vontades.

Outro destaque de elenco é a talentosa Donna Lynne Champlin (Birdman ou – a Inesperada Virtude da Ignorância), no papel da professora Barb. Apesar de entrar em algumas cadências sem ritmo, por procurar demais ser frenética, a energia, juntamente com a sensibilidade que ela imprime em sua Miss Barb é notável. É perceptível a consciência cênica que ela possui, dando espaço para que tanto Champlin consiga crescer em cada sequência como quem está atuando com ela também seja enaltecido. Essa qualidade se intensifica quando ela está com Sofia Carson. A dupla cria um bom jogo de dualidade, com uma sendo empolgação e a outra tensão. E Carson não decepciona, no geral. Ainda que não traga nada excepcional, a intérprete tem uma performance equilibrada, sabendo deixar claro o amadurecimento de April no decorrer da exibição.

Feel The Beat

No entanto, todo carisma do elenco não consegue dar conta da corrida que os roteiristas Michael Armbruster (Tarde Demais) e Shawn Ku (Samsara) deixam o filme se transformar. Apesar da obviedade do que vai ocorrer, o desenvolvimento das relações tem uma progressão até a metade do enredo. Contudo, em um dado momento, as coisas começam a ficar apressadas e todo o crescimento de April e o carinho dela pelas meninas soa instantâneo. Talvez, a vontade em mostrar muitas situações e peripécias das competições demasiadamente tenha feito com que esta sensação tenha se estabelecido.

As subtramas também têm seus sentidos desfeitos quando não há tempo para que elas sejam vivenciadas, partindo para encerramentos rápidos. Algumas delas, inclusive, nem precisavam existir, como bailarino Dick, que fica de lado o tempo inteiro e, de repente, passa a fazer parte da equipe. O que seria orgânico, pois o menino mostra interesse pela arte e isto acaba ficando como uma justificativa para um garoto poder dançar. Essa classificação da dança como “coisa de menina” é o ponto mais lamentável do longa. Completamente desnecessário, ainda mais sendo reforçado a cada momento que homens aparecem no ecrã.

Ainda assim, apesar destes pequenos detalhes de amarração e exageros de histórias paralelas, Feel The Beat ganha o público pelo coração. Com figuras carismáticas em cena, coreografias divertidas e uma boa intenção de criar camadas para todos os papéis principais, a produção é uma boa pedida para uma tarde leve e sem pretensões. Ainda que sufocado de plots, as tonalidades coloridas, os poucos respiros quando não há nenhum conflito ocorrendo e a dinâmica dos atores, equilibram o resultado final, que não fica totalmente comprometido.

Direção: Elissa Down

Elenco: Sofia Carson, Donna Lynne Champlin, Wolfgang Novogratz, Dennis Andres, Enrico Colantoni, Lidya Jewett

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