Apostando na investigação das relações humanas, diante de conflitos sociais, Entre dois mundos é efetivo em denunciar o sistema opressor da classe trabalhadora francesa, mesmo que não saia da esfera de apontar uma falha, sem observar a questão com mais cuidado. Focando na realidade de mulheres que são funcionárias na área de limpeza, através de planos mais longos do diretor Emmanuel Carrère (Amor Suspeito) e na elaboração de construção de atmosfera, o espectador cria uma empatia e se sente mais próximo das personagens.
Apesar do desfecho do longa-metragem ser abrupto, a maior parte da projeção consegue equilibrar a dinâmica entre técnica, discurso e conexão emocional com a obra. A trama gira em torno da escritora Marianne Winckler (Juliette Binoche), que se infiltra em empresas voltadas para serviços gerais, com intuito de vivenciar na pele o que passam estas funcionárias. As lutas para se manter na França, o cenário precário oferecido pelos empregadores e as humilhações experienciadas pelo grupo são os temas centrais do filme.
Para tratar do assunto, o roteiro de Carrère, ao lado de Hélène Devynk e Florence Aubenas, decide explorar a amizade de Marianne com suas colegas. Por um lado, esta escolha eleva a criação de empatia do público com a história. Por outro, o tema central fica apenas como pano de fundo. Ainda assi, a profundidade das facetas de Marianne ganham destaque quando é possível observar como uma nova personalidade dela vai surgindo durante a projeção.
Este fator provoca o entendimento de como o ambiente no qual se vive pode transformar o sujeito, fazendo emergir novas características nele – como instinto de sobrevivência e resignação, aqui. Essa outra Marianne, que surge após a sua inserção neste mercado de trabalho, é elaborada lentamente. A partir de cada nova informação adquirida por ela, um detalhe de sua expressão facial, respiração ou pausas são acrescentados e tudo sutilmente. A única questão incômoda, neste sentido, é ver todo esse cuidado de Juliette com seu papel ruir, de repente.
A finalização do filme não peca apenas por interromper o fluxo do debate, sem concluir a linha de raciocínio convocada pela premissa, mas também pela imediata virada de Marianne. Entre uma sequência e outra, a personagem parece um alguém completamente distinto e nenhum traço do que fora apresentado anteriormente é impresso por Binoche neste final da produção.
Desta maneira, a plateia pode se frustrar por não acompanhar essa transição de Marianne, da sua vida nova para o retorno para a antiga, principalmente porque no meio do plot, a morte do pai dela entra em voga e não afeta o enredo em nada, muito menos seu relacionamento com um rapaz, que é truncado e não acrescenta no desenvolvimento dela ou da trama. É por isso que fica uma sensação, ao final da sessão, de que existe algumas pontas soltas no longa.
Os roteiristas parecem que pensavam em algo, mas iam abandonando algumas ideias no caminho. Devido a este fato, a reflexão acaba ficando superficial. Contudo, de toda maneira, os elementos visuais são redondos. Há um estabelecimento interessante do azul como temperatura que permeia a maior parte das tonalidades de luz, locais, objetos de cena, enfim, do que vem da Arte e da Fotografia. Esse tom evoca uma melancolia que perpassa as emoções de t0das as figuras dramáticas da história.
Essa cor, juntamente com o creme e o avermelhado, que também estão presentes, confere um pouco mais de sentido para o ecrã. Existe muito texto no não dito, no texto não falado. Nesse aspecto que as cores e luzes fomentam o que não é elaborado pela narrativa de forma direta. Obviamente, o debate não precisa ser totalmente verbal – apesar de aqui faltar a verbalização em ordem de trazer amarração. Muitos nós são somente trazidos, sem maiores desenvolvimentos.
Por estes motivos que Entre dois mundos tem um resultado geral na média. Há muito entregue em suas visualidades, quase sensoriais, um elenco coeso e uma protagonista carismática. Ao mesmo tempo, todo esse rico universo é desperdiçado por uma ausência de condução mais firme, que pudesse entregar uma material mais potente.
Direção: Emmanuel Carrère
Elenco: Juliette Binoche, Louise Pociecka, Steve Papagiannis
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