30º Cinepe: O cobrador de fraque

3.5

Dentro de um imaginário popular, as comédias tendem a ser subestimadas. No entanto, é difícil equilibrar os três tripés da qualidade cômica no audiovisual, que são: conexão com as personagens, comicidade e a não previsibilidade. O cobrador de fraque chega perto de alcançar tamanha façanha.

O que atrapalha a produção é a obviedade do roteiro e o desfecho dele, que é mal conduzido, como explicaremos mais adiante. Contudo, ainda assim, essas questões não chegam a interferir de forma tão profunda no longa-metragem luso-brasileiro de Tomás Portella (Isolados).

Fraque é divertido e contém algo que essa que vos escreve clama ao entrar numa sala de cinema: personagens bem escritas, que geram empatia. Peri (Leandro Ramos) e Matilde (Gabriela Barros) são figuras que encantam na tela. Ambos possuem carisma e sabem jogar em cena. Os exemplos ocorrem durante toda a sessão.

No entanto,  nas sequências nas quais Peri está no ofício de cobrador de fraque e “persegue” Matilde para que ela pague é onde o ouro reside. Existe um ponto trabalhado por atores que é a contracena. É necessário que existam ações que a personagem faça quando não está falando.

Pode parecer simples, na teoria, porém uma contracena bem feita não é nada fácil. Aqui, Gabriela e Leandro jogam com os olhos e a respiração. Os intérpretes brincam com a dinâmica de deixar uma pausa entre uma fala e outra e, ao mesmo tempo, com a de não deixar espaço algum entre o texto dos dois.

Essa maneira de atuar juntos é o ponto alto do longa. Além disso, a própria dramaturgia parece contribuir positivamente para essa construção da dupla. De longe, Matilde e Peri são os que foram escritos com profundidade. A maneira como eles “acontecem” na tela deixa a impressão de que houve aqui um processo de escrita mais cuidadoso.

Muitas vezes acontece um trabalho completo de gênese da personagem ou em atividades típicas que os roteiristas fazem durante o processo de criação, como jogos de imaginação. Independentemente da estratégia que pode ter sido utilizada, o resultado está presente durante a projeção.

Nesse sentido, ainda olhando para a análise das personagens, é possível notar que os coadjuvantes não foram tão bem pensados. Quanto mais à margem da trama estão, mais rasos e poucos explorados são.  Esse fator poderia não atrapalhar o enredo se não fosse um único papel destoante nesse contexto.

O melhor amigo de Peri muda de personalidade abruptamente. A personagem de Marcello Melo Jr. tem uma reviravolta que faz pouco sentido na estrutura basilar da narrativa. Ele era o sensível e sonhado, que é colocado como um grande vilão, repentinamente.

A impressão que esta escolha traz é a de que não havia um grande antagonista da história e, por isso, selecionaram esse caminho peculiar. A saída fácil se torna complicada neste cenário porque o filme nem precisava de grandes vilanias e peripécias.

As próprias questões internas de Peri já seriam suficientemente boas para prender a atenção da plateia. Assim como o uso da luz e das texturas feitos pela direção de foto e de arte da produção fazem. É curioso observar como na dicotomia óbvia de paletas, a equipe constrói sentidos plurais para o enredo.

O Brasil de Fraque tem mais sombras, mais vermelho, mais internas em espaços apertados e objetos mais retos. Portugal é colocado como solar, de tom pastel, quase entediante, com externas, majoritariamente diurnas. Talvez seja uma visão exagerada de Lisboa, mas faz sentido para a história, porque é ali que Peri se descobre um homem feliz e melhor.

Desta maneira, O Cobrador de Fraque pode ser ingênuo e previsível, mas também aposta e consegue realizar um feito quase raro na atualidade: boas personagens centrais para o ecrã! Assim, esta é uma sessão leve e divertida, mas que também mostra uma habilidade meio nostálgica de fazer um cinema que deixa espaço para que um casal principal brilhe!

Direção: Tomás Portella

Elenco: Leandro Ramos, Gabriela Barros, Marcello Melo Jr.

30º Cinepe: O cobrador de fraque
3.5