15º Olhar de Cinema: Reparação

4

É difícil falar sobre os detalhes de aspectos formais e narrativos de Reparação. Quem já perdeu o pai, a mãe ou ambos sabe bem sobre esse nó na garganta que o tema dá. Mas, em termos técnicos, esta é uma obra coesa e sensível sobre o luto em sua forma mais traiçoeira: a memória.

A lembrança da imagem e da voz estão incrustadas na tela, para todo sempre. Mas, é importante destacar como Marcus Curvelo, sem intenção, enganou sua audiência. O diretor é o “menino do Joder”, das comédias mais afiadas do Brasil contemporâneo.

Para quem ama a mistura de sarcasmo refinado com humor quinta série, o cinema de Curvelo vai encantar. Esta que vos escreve, por exemplo, é fã, de verdade. Fã a ponto de arranjar qualquer horário em festival para encaixar um filme do cineasta. Era Joder que esta singela crítica buscava aqui.

Mas, em uma sessão diurna de Olhar de Cinema, o encontrado foi um horizonte infinito de melancolia e consciência de linguagem cinematográfica. Aqui, Curvelo se vale de texturas, sobreposições e planos longos, que dão um poder para o público que talvez o público não queira.

Justamente porque a ideia de finitude, mesmo que seja a única certeza que a humanidade carrega, é a mais difícil de se aceitar.  Na sessão, quando a onda do mar bate, as cinzas do pai de Marcus se juntam a ela e o desespero de quem assiste aumenta.

O novo filme de Curvelo é um grito em formato de imagem. Ele cobre seu rosto, ou lateraliza ele, dissolve seu pai na tela e os sentidos dos sentimentos dele e de quem o assiste se ampliam. Uma relação de impermanência e sufocamento é estabelecida.

O luto é, de fato, um filme em p&b, contemplativo, no qual é impossível mostrar o rosto de quem sofre completamente. Ainda assim, Curvelo não se esconde e a presença de sua mãe na narrativa e – aí sim mostrada com tempo estendido – dialoga com mais uma camada de sua perda e revela seu olhar para o que ele sentiu e sente.

O tempo que o diretor dá para Sônia também transmite força e por mais que exista dor posta no ecrã, ela é quem conecta a plateia com a lucidez e a necessidade de se viver o momento presente. Desta maneira, Reparação é um título sensível e até um tanto perturbador, mas que não é só um retrato de chagas de uma saudade irreparável.

O longa tem esperança para a vida, na figura de Sônia, e um apuro estético que se reflete nessa angústia que permanece mesmo após a exibição. Em sua autoficção, Marcus Curvelo diz muito de si e de seus pais, mas ele também continua conseguindo o que sempre fez: transformar o cinema em espelho de seu espectador.

A sessão escancara, com seus quadros demorados, as dores de quem acompanha a narrativa. Neste sentido, a qualidade técnica e a consciência sobre audiovisual, bem como a compreensão de como se expor em um filme fazem de Reparação uma obra contundente e expressiva.

Direção: Marcus Curvelo

Elenco: Sônia Gentil Curvelo, Marcus Curvelo, Joel Curvelo

15º Olhar de Cinema: Reparação
4