Ah, o olhar errante em direção às terras que um dia foram cobertas de alegria juvenil… Em As donzelas de Wilko, Andrzej Wajda (Tudo à venda) convida o espectador a embarcar em uma viagem nostálgica e complexa de seu protagonista , cheia de riquezas visuais e dramatúrgicas.
É forte competir com as memórias juvenis das personagens. Baseado na obra de Jaroslaw Iwaszkiewicz, o roteiro de Zbigniew Kaminski (Ambição fatal) coloca diálogos que leva o público a imaginar momentos divertidos, solares e felizes da juventude de Wiktor (Daniel Olbrychski), o protagonista, e as seis irmãs que dão nome ao titulo.
Essas menções deixam no ar que nada do que se verá visto no ecrã tem comparação com que essas figuras já vivenciaram. Paralelamente a essa estratégia verbal, Wajda constrói uma atmosfera pálida, junto com sua equipe. O sol e as cores quentes estão presentes, mas desbotadas.
Esse aspecto convoca a sensação de lembrança e saudade de um tempo que a plateia sequer conheceu. O mesmo se pode dizer dos ângulos de câmera e dos silêncios contemplativos. Wajda trabalha a marcação de cena com o posicionamento de câmera de uma forma que o público quase sempre pareça à espreita.
Com a imagem lateralizada, outra sensação importante que a decupagem passa é a de sufocamento. Independentemente se o quadro está mais fechado ou aberto, o plano parece apertado. Wiktor é um homem atormentado pela guerra e por tudo que ele pensa ter perdido de sua juventude por conta disso.
Assim, ele está preso nesta emoção e confuso com a efusividade e as transformações das irmãs de Wilko. Desta forma, Wajda coloca a plateia para se sentir como ele e no enquadramento mais fechado, os atores ficam ainda mais para frente, ocupando a tela sem deixar respiro.
Já em imagens mais amplas, Wajda insere uma quantidade maior de informações, seja pelo número de objetos ou de personagens em cena. Por isso que, mesmo nos instantes de aparente silêncio e paz, falta ar para Wiktor.
Contudo, o tom de comédia de sorriso – como diz a professora Catarina Sant’anna, da UFBA – está presente durante toda a sessão. E o que é isso? O longa não tem um humor de fazer gargalhar. Não, ele convoca aquela graça suave, que mistura constrangimento com reflexão.
Em termos de melhorias, talvez o roteiro pudesse explorar mais a identidade das mulheres que Wiktor tanto deseja. Elas parecem operar em uma nota só: a nervosa, a tímida, a sonhadora. Ainda assim, As donzelas de Wilko é divertido, leve e vale o tempo.
E é engraçado observar e analisar a sua complexidade, no geral. Seja em seu texto ou em sua estética, ele é um filme que provoca emoções plurais, que trata de sentimentos simples e extremamente complicados, ao mesmo tempo.
Neste sentido, a música incidental ajuda a elaborar mais uma dessas camadas Wajdianas. Ela é aqui uma comentadora. Em suas velocidades que se transformam de acordo com a perspectiva de Wiktor sobre cada irmã, as sonoridades traduzem mais dos pensamentos do protagonista do que suas próprias falas.
Desta maneira, As donzelas de Wilko é um título importante do cinema. Com um discurso complexo e crítico, passado através do chiste e das impressões sensoriais, essa é uma sessão que quem assiste pode desejar que nunca termine de tão boa.
Direção: Andrzej Wajda
Elenco: Daniel Olbrychski, Anna Seniuk, Maja Komorowska



