Por onde começar a explicar a experiência que é a sessão de Verde Oliva, novo longa-metragem de Wellington Sari (Bia Mais um)? Talvez, dizendo: mesmo que você seja o espectador mais generoso do mundo, vai ser difícil perdoar o Sari por fazer você gastar seu tempo de vida nessa produção.
A direção soa amadora e não está à serviço da narrativa. Há uma procura em explorar na decupagem todos os ângulos e quadros possíveis, bem como efeitos de câmera. No entanto, a quantidade excessiva de planos e deslocamentos expressivos cansam o público.
Tudo isso porque as escolhas da direção não estão conectadas com as ações do roteiro. Faltam respiros, reflexões sobre a trama em formato de imagem. Mas, como dirigir com coesão e consciência quando o roteiro falha em ambientar a plateia e conduzi-la pela história?
O enredo é confuso e as ações dos antagonistas não são amarradas. Sari ainda é pretensioso e tenta criar mistério, com segredos, crimes de Estado e protestos políticos, porém, além da maioria de suas escolhas serem óbvias desde o início, a forma como as situações ocorrem são constrangedoras.
Um exemplo é a sequência da galeria, na qual o protagonista vai salvar a melhor amiga, Roberta (Nathalia Garcia). Um homem caminha em câmera lenta com a bandeira do Brasil. Golbery (Gilda Nomacce) segura Roberta para ela não fugir. E o principal fica paralisado. O slow motion dura por um tempo doloroso.
Não existe construção de tensão na cena. Não houve elaboração anterior de suspensão, que desse conta dessa grande passagem em câmera lenta. Somente a Nathalia (Ferrugem) e a Gilda (Prédio Vazio) se esforçam (e têm talento) para tentar tornar crível toda essa situação.
Na realidade, quem conhece o trabalho das atrizes pode passar a sessão inteira pensado “misericórdia, a pobi da Gilda e a pobi da Nathalia”. Porque há uma vontade enorme das duas em fazer bons trabalhos e em transformar em orgânico diálogos absurdos, mas uma impossibilidade de alcançar este intento, porque o roteiro não construiu personagens que façam sentido.
Sobretudo Gilda, que é um destaque do cinema nacional. Nomacce cria gestos e modulações vocais para que a sua Golbery saia da faixa de sanidade e isso ajuda a dissolver um pouco do tom histriônico que este papel poderia evocar. Ela segura a onda, mas não consegue salvar o filme, porque o problema da obra é profundo.
Por exemplo, há o fato de que o relacionamento de João (Jean Guilherme Filho) com a namorada é construído tão frouxo, que ninguém se importa se eles estão juntos ou não. Consequentemente, a força do personagem principal vai se esvaindo, gerando um desinteresse progressivo na trama.
É bem verdade que é notável a coragem de Sari em tentar fazer um thriller noir hitchcockiano, criticando bolsomions e a ausência de letramento político no Brasil e no mundo. Mas, nem só de coragem e boas intenções se vive a arte. A realização da produção carece de qualidade em diversas camadas.
Nem mesmo o desenho de som contribui para o possível suspense que poderia ter sido construído e evocado aqui. A montagem também incomoda, por ser mais uma quebradora de imersão do que gerar fluidez para o longa. Inclusive, a ordem de algumas sequências não soam como vindas do roteiro e sim da montagem.
As últimas cenas são enlouquecedoras, porque elas vão piorando a falta de sentido de toda da trama e de toda a motivação de João. A locação inteira no teatro poderia ser cortada. O mal estar de Roberta no final não se justifica de maneira tão forte, por conta dos cortes e da seleção de onde esse momento está.
Desta maneira, Verde Oliva é um filme ousado, mas que não vai muito além da pretensão. Esta não é uma obra recomendável. É cansativa e não chega a lugar algum. No entanto, caso a cara leitora/o caro leitor seja fã de Gilda, aí, até vale a pena, porque ver Gilda é sempre um acontecimento, mesmo que ao seu redor, a atmosfera seja torturante!
Direção: Wellington Sari
Elenco: Jean Guilherme Filho, Nathalia Garcia, Gilda Nomacce



